Recife, Terça-Feira, 14 de Abril de 1998

Pedrinho Abrão e Naya ganham tempo na Câmara

Luto pelo senador Humberto Lucena adia votação de pedido de cassação

BRASÍLIA - A Câmara dos Deputados deve frustrar esta semana a expectativa dos que esperam uma punição para os deputados Pedrinho Abrão (PTB-GO) e Sérgio Naya (PPB-MG). As cassações começariam hoje, mas devem ser adiadas por causa da morte do senador Humberto Lucena (PMDB-PB). Segundo relato de parlamentares, há um movimento para absolver os dois parlamentares processados para perda do mandato.

O julgamento de Pedrinho, acusado de tentativa de extorsão contra a empreiteira Andrade Gutierrez, está marcado para hoje. Mas o luto do Senado pela morte de Lucena poderá ser acompanhado pela Câmara, que cancelaria então a sessão de hoje. O próprio deputado afirmava, ontem, ter ganho mais um dia. Para quarta-feira, está marcada a votação do pedido de cassação de Sérgio Naya, que tem feito nos últimos dias uma grande mobilização para sensibilizar os deputados, principalmente o chamado baixo clero, e impedir a perda do mandato.

Ajudado por aliados, Naya está pedindo pessoalmente que os parlamentares votem contra oufaltem à sessão de votação. Se o julgamento de Abrão for adiado, o de Naya também pode acabar transferido para outro dia. Mas até ontem à noite a Mesa da Câmara não decidido. "Nenhum dos dois será cassado. Pelo movimento que assistimos, em silêncio, os deputados dizem que não vão entregar ninguém. Quem cassa deputados é o povo, nas urnas", contou o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ).

MANDADO DE SEGURANÇA

Pedrinho Abrão pensou em entrar com um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal para impedir a votação hoje, alegando que não teve tempo para preparar sua defesa. Na semana passada, o líder do PTB Paulo Heslander (MG) disse que teve do presidente Michel Temer (PMDB-SP) a promessa de que o processo de Abrão só seria votado depois de Naya. No mesmo dia a Mesa se reuniu e o corregedor Severino Cavalcanti, do PPB de Naya, defendeu a inversão da pauta, alegando que o pedido de cassação de Pedrinho havia sido aprovado primeiro na Comissão de Constituição e Justiça.

"Essa antecipação é uma grande armação para livrar o Sérgio Naya. Se Pedrinho for cassado primeiro, a Câmara fica com crédito junto à sociedade para inocentar Naya. Essa mudança de pauta é suspeita", protestou Heslander, que antecipou sua chegada em Brasília para articular com Pedrinho estratégias de apoio.

Sem aparecer na Câmara, Naya ligou ou conversou pessoalmente com vários deputados. No dia da votação do pedido de cassação na CCJ, Naya pediu votos na frente de todo mundo. Paulo Heslander, líder do PTB na Câmara, foi um dos que recebeu a visita de Sérgio Naya em casa. No dia da votação na CCJ ele deu uma declaração atestando que votaria pela cassação, no plenário. À noite, quando chegou em casa, Naya estava na porta à sua espera. "Você disse na televisão que vai votar pela minha cassação. Estou aqui para pedir que pense melhor. Preciso da sua ajuda", implorou Naya, apelando para o espírito de corpo na tentativa de sensibilizar o deputado.

AMIZADE

No cerco aos parlamentares, Naya está sendo ajudado pelos amigos que ainda tem na Câmarae em Brasília. Heslander diz que o deputado distrital Luís Estevão (PMDB-DF) é um dos que estaria trabalhando no PMDB para impedir a cassação. "Estevão é candidato ao Senado e está pedindo votos no partido para Naya", denunciou. Estevão desmentiu que tenha procurado algum parlamentar para tratar do assunto: "Quem está dizendo isso deveria fazer um exame de sanidade mental".  Deputados do PTB e do PPB duvidam que Pedrinho e Naya sejam cassados.


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