Recife, Terça-Feira, 14 de Abril de 1998

Senador morre e deixa o PMDB da Paraíba órfão

SÃO PAULO - O senador Humberto Lucena (PMDB-PB) morreu, no início da noite de ontem, no Instituto do Coração (Incor), onde estava internado desde 18 de fevereiro. Lucena, que deveria completar 70 anos, no próximo dia 22, tinha problemas cardíacos.

Submetido a uma cirurgia, em 10 de março, para implantação de duas pontes de safena e uma mamária, Humberto Lucena vinha se recuperando bem, mas teve duas paradas cardíacas consecutivas, o que agravou seu estado. O corpo do senador vai ser velado, hoje pela manhã, a partir das 8h , no Salão Negro do Congresso Nacional.

Advogado e político, Lucena foi eleito deputado estadual duas vezes e deputado federal, quatro. Como senador pelo PMDB, presidiu o Senado no governo do ex-presidente José Sarney e liderou a bancada de seu partido. Presidiu também a Assembléia Nacional Constituinte, em 1988.

ESCÂNDALO

Era favorável à reforma agrária, ao ensino público gratuito e à reforma da Previdência, com novo limite de idade para a aposentadoria. Votou pelos cinco anos de mandato para o presidente da República.

Duas vezes presidente do Senado, Humberto Lucena era uma estrela cadente na política, depois de um passado de algumas glórias. O brilho deste paraibano que era o senador mais antigo da Casa, reeleito ininterruptamente desde 1978, se apagou em 1995, quando teve de ser anistiado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso para não perder o seu mandato de senador pelo PMDB.

Em seu último ano como presidente do Senado, Lucena envolveu-se no escândalo do uso da gráfica do Senado para impressão de material de propaganda eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) anulou sua reeleição em 1994, mas o senador teve a solidariedade dos colegas, que aprovaram um projeto de anistia que acabou sendo sancionado por Fernando Henrique depois de muita negociação.

ACUSAÇÕES

Um ano antes, Humberto Lucena não correspondera à fama que conquistara ao longo dos anos de político hábil e bom articulador parlamentar ao conduzir a fracassada revisão constitucional de 1993. A base de apoio do então presidente Itamar Franco o acusou de não ter pulso firme nas votações e de permitir que o bloco de oposição obstruísse váras das sessões decisivas. Na época, sua filha, Lisle, namorava Itamar.

Na primeira passagem pela presidência do Senado, entre 1987 e 1988, Humberto Lucena enfrentou acusações de nepotismo por empregar familiares e amigos em seu gabinete. Políticos comentavam que o personagem Justo Veríssimo, criado pelo humorista Chico Anísio como modelo de mau político e trnsmitido semanalmente pela TV, teria sido inspirado na maneira de fazer política de Lucena.

Apesar de todos os contratempos, Lucena atravessou mais de quarenta anos de vida pública sem sofrer quaisquer acusações de corrupção, dispondo, ao morrer, de um patrimônio razoavelmente modesto. Humberto Lucena era presidente do PMDB paraibano desde a fundação do partido, mas nunca conseguiu chegar ao governo do estado, um sonho que nutriu por muito tempo.

CRUZADO

Sua grande chance aconteceu em 1986, quando Lucena não tinhacompetidores internos para conseguir a indicação e poderia ser beneficiado pelo Plano Cruzado. O plano econômico do presidente José Sarney foi o combustível que movimentou muitas candidaturas peemedebistas pelo país, sendo responsável, naquele ano, pela eleição de 22 governadores do PMDB.

Lucena no entanto, decidiu abrir mão da candidatura em favor de Tarcisio Buriti, que foi eleito e rompeu com o partido pouco tempo depois.

Esse ano, antes de adoecer, Lucena estava tentando servir como intermediário entre o senador Ronaldo Cunha Lima e o governador José Maranhão, que disputam a hegemonia do PMDB da Paraíba, disputa que pode levar ao esfacelamento do partido no estado. O senador Lucena era considerado pelos dois lados como o grande ponto de equilíbrio e conciliação na legenda.


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