Recife, Sábado, 11 de Abril de 1998
Edvaldo Rodrigues Trabalhadores rurais estão dispostos a lutar judicialmente para continuar ocupando o sítio Ladeira Grande

Alerta policial em Glória do Goitá

Ameaça dos sem-terra de incendiar o fórum da cidade deixou o batalhão da Polícia Militar de prontidão

O policiamento em Glória do Goitá foi reforçado depois que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) prometeu atear fogo no fórum daquele município. A cidade recebeu mais dois policiais militares, aumentando para seis o contingente, e uma viatura. A ameaça feita quinta-feira pelo coordenador do MST, Jaime Amorim, foi em represália à reintegração de posse ao proprietário Anísio Magalhães, emitida pelo juiz Reginaldo Alves de Andrade. Na ação, o magistrado manda prender os sem-terra caso resistam ao despejo, queimar as barracas e enviar os pertences deles à delegacia de polícia.

Apesar da promessa do MST, o coordenador de Operações do 2º Batalhão da Polícia Militar, capitão Fernando Alvares, informou que o clima na cidade e no acampamento foi tranqüilo durante todo o dia de ontem. O prédio do fórum, segundo ele, costuma ter a vigilância de dois policiais, quando em dias de funcionamento normal. Alvares falou que o comando do batalhão, localizado em Nazaré da Mata, antes de auxiliar os Oficiais de Justiça na reintegração de posse irá ao acampamento. A medida é para reconhecimento da área e levantar um perfil dos ocupantes, como o número de crianças e mulheres grávidas. A ocupação aconteceu na manhã do dia 30 de março e possui 160 famílias.

O reforço atende à solicitação do magistrado, que não pediu proteção particular nem para sua casa. "Não acredito em represálias pessoais, mas pode ser que realmente tenha contra o Poder Judiciário", falou Reginaldo de Andrade, que segunda-feira recebe o juiz-corregedor Fábio Lima na Comarca. Lima está sendo enviado pelo presidente do Tribunal de Justiça de Pernambuco, desembargador Etério Galvão, para analisar a situação e os detalhes da liminar judicial. A partir da visita, o juiz-corregedor fará um relatório a ser encaminhado ao Conselho da Magistratura. O objetivo, segundo Galvão, é tentar solucionar o problema sem violência.

O possível conflito em Glória Goitá está preocupando políticos e entidades ligadas aos direitos humanos e à criança e adolescentes. Paraevitar que se repita tragédia como no Pará e no Pontal Paranapanema, em São Paulo, eles solicitaram audiência ao presidente do Tribunal de Justiça. A proposta apresentada pela comissão é que aconteça segunda-feira, às 10h. O encontro não foi confirmado porque o desembargador Etério Galvão está viajando e retorna apenas amanhã. Entre os integrantes da comissão estão o Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop), o deputado Fernando Ferro (PT) e o Centro Dom Heldér Câmara (Cendhec)

O Sítio Ladeira Grande fica às margens da PE-50, próximo ao quilômetro 14, no município de Glória do Goitá, Agreste Setentrional e a 63 quilômetros da capital pernambucana. De acordo com a coordenação regional do MST, a área faz parte do Engenho Tomé, que possui 580 hectares.


MST faz documento de protesto

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