Recife, Sábado, 11 de Abril de 1998
Dorival Elze Arquitetura da Escola Alberto Torres, em Tejipió, serviu de referência para a construção de Brasília e deu a importância histórica de Cardozo

Obras modernistas abandonadas

Planejadas por Joaquim Cardozo, elas são desconhecidas pela população e esquecidas pelas autoridades

Inácio França
Da equipe do DIÁRIO

Acostumados a se orgulhar do casario colonial do sítio histórico de Olinda ou da revitalização do Recife Antigo, os pernambucanos desconhecem a importância de uma dezena de prédios, construídos entre as décadas de 30 e 70, espalhados por diferentes bairros das duas cidades. São edifícios, hospitais e escolas calculados pelo engenheiro, dramaturgo e poeta recifense Joaquim Cardozo. Além da falta de informação da população, outro motivo impede que essas obras sejam devidamente apreciadas: a maioria delas está degradada ou abandonada.

Cardozo trabalhou em parceria com dois arquitetos que ajudaram a transformar a paisagem das duas cidades. De 1934 a 1937, trabalhando na extinta Secretaria de Viação e Obras Públicas, ele se juntou ao arquiteto carioca Luís Nunes. Em 1939, depois de desafiar o interventor Agamenon Magalhães num discurso de formatura, foi demitido e resolveu se mudar para o Rio de Janeiro, onde fez fama como parceiro de Oscar Niemeyer. Convidado por Acácio Borsói, voltou no início dos anos 70 para calcular três edifícios residenciais da avenida Boa Viagem e a sede do Bandepe, no bairro do Recife.

Com Nunes, Cardozo deixou os recifenses perplexos. Os projetos das duplas eram radicalmente diferentes de tudo que havia na cidade. Um dos mais curiosos é a Escola Alberto Torres, na avenida José Rufino, em Tejipió. Aliás, essa escola é uma das poucas obras onde há referências sobre sua importância histórica. "Nós ensinamos aos nossos 1.900 alunos quem foi Cardozo e mostramos que as rampas e os arcos do acesso para o primeiro andar serviram como referência na construção de Brasília, pois nossa escola foi feita em 1936, 25 anos antes da capital ser inaugurada", explica a diretora Gersilha da Silva Queiróz. Segundo o arquiteto e professor da UFPE, Geraldo José de Santana, a escola foi o primeiro prédio do país com rampas de acesso a outros andares.

A parceria Cardozo-Nunes também foi responsável pela famosa caixa d'água de Olinda, pelo Hospital da Polícia Militar, no Derby, pelo campus da Universidade Rural, que na verdade tinha sido concebido para ser um reformatório de menores, e pela fábrica da Cilpe, no Cais José Mariano. A grande novidade da sede da companhia de leite era a sua linha de produção, que podia ser vista pelos pedestres que circulavam pela rua. Depois de comprada pela Parmalat, a fábrica foi desativada e hoje está abandonada.

BORSÓI

Demitido a bem do serviço público depois de ter criticado a política de obras do governo do estado, Cardozo teve que deixar Pernambuco. No Rio, montou um escritório. Depois da construção de Brasília, da igreja da Pampulha (em Belo Horizonte) e de obras na Venezuela, Líbano e Alemanha, Cardozo ganhou fama internacional. O reconhecimento mundial não impediu que aceitasse um convite de Acácio Borsói para calcular projetos de prédios de apartamentos. Ajudou a construir os edifícios Portinari e Velásquez, no Setúbal, e o Michelângelo, próximo ao Acaiaca.

Os cálculos das plantas do edifício-sede do Bandepe também ficaram sob sua responsabilidade. Esta também é uma das poucas obras com placas informativas sobre a participação de Cardozo. Bem mais acanhado, a agência do falido Banco Econômico, atual Excel, é outro exemplo da parceria com Borsói, hoje morando no Rio de Janeiro.


Do Recife a Nova York
Especialista na região

Fale conosco diario@dpnet.com.br

MAPA BRASIL ECONOMIA ESPORTES HISTÓRIA HUMOR
INFORMÁTICA INTERIOR MUNDO VEÍCULOS VIAGEM VIDA URBANA VIVER