Recife, Sábado, 11 de Abril de 1998

Rivalidade dentro e fora do mar

Com o aumento do número de praticantes de bodyboarding, o preconceito começa a diminuir. Mas os primos pobres do surfe ainda buscam um maior apoio

Roberta Aureliano
Da equipe do DIÁRIO

Esporte para mulher ou então para homem que não consegue ficar em pé na prancha. Durante alguns anos, o bodyboarding sofreu com esses tipos de comentários. O tempo passou e a galera que surfa deitado mostrou o que realmente é a modalidade. O número de adeptos cresceu bastante em todo o mundo, e no Brasil, talvez mais que em todos os outros países.

A rivalidade que não existe entre o futebol de campo e o futsal por exemplo, existiu, e ainda existe, já em menor proporção, entre o surfe e o bodyboarding. É como se os surfistas fossem melhores que os bodyboarderes, que seus campeonatos fossem mais equilibrados e com melhor nível técnico. O que aguça ainda mais a briga é que, ao contrário das outras modalidades esportivas, o surfe e o bodyboarding são praticados no mesmo local, no mar. Apesar da imensidão do espaço, na maioria das vezes as melhores ondas estão no mesmo pico.

O surfe é mais rico que o bodyboarding. Seus campeonatos têm premiação mais elevada, no entanto é o primo pobre que tem títulos mais importantes no circuito mundial. Os surfistas, até agora, não trouxeram sequer um título mundial da divisão de elite, conquistando apenas o primeiro lugar no World Qualifying Series (WQS), com Victor Ribas, e no Campeonato Mundial Amador, com Fábio Gouveia. Já o bodyboarding tem nada menos que sete títulos mundiais, categoria profissional. Quatro foram conquistados por Guilherme Tâmega e dois por Daniela Freitas.

De acordo com o presidente da Organização Brasileira dos Bodyboarderes Profissionais, Cláudio Marques, o preconceito com os praticantes do bodyboarding diminuiu bastante. Ele acredita que apenas quem pratica o free surf, ou seja, aqueles que não competem, ainda alimentam esse tipo de preconceito. "Os surfistas profissionais têm outra visão do nosso esporte. Sabem que é tão importante quanto o deles. Não têm mais a idéia que a gente não sabe surfar e que está no mar apenas para atrapalhar", analisa Marques.

Para Cláudio Marques, o preconceito foi terminando quando os praticantes do bodyboarding forampara o Havaí. "O Havaí era a prova de fogo. A gente foi lá e mostrou que podia encarar as ondas grandes tão bem, ou até melhor, que eles", sentencia o ex-bodyboarder. A atual campeã brasileira, a paulista Lissandra Tutty, concorda com a opinião de Cláudio. "O sucesso das competições de bodyboarding mostraram o valor e a qualidade do nosso esporte", completa.

Apesar do cessar fogo dos surfistas com relação ao bodyboarderes, quando o assunto é a briga pela onda eles não dão moleza. Não olham para o lado e descem na onda. Eles só aliviam quando dividem espaço com as meninas. "Quando tem mulher na água eles respeitam, mas quando o bodyboarder é um menino, nem pensar. É a lei da selva", comenta Bianka Carvalho. "Tudo que a Bianka falou é verdade. Não tenho esse problema em Maracaípe porque conheço todo mundo, mas os meninos que não se afinam com o pessoal, têm que ralar muito para conseguir surfar uma onda. É como se o bodyboarding ficasse em segundo plano", dispara o pernambucano Henrique Barreiro.

PATROCINADOR

No que se refere aos patrocinadores, a opinião é geral, o bodyboarding é prejudicado. A maioria das empresas de surfwear preferem investir no surfe e nos seus adeptos. Diante dessa situação, os competidores estão procurando patrocinadores alternativos. "A visão dos donos das lojas de surfwear é limitada porque eles pensam que apenas os surfistas consomem seus produtos. As lojas especializadas em materiais de bodyboarding, que são apenas as pranchas e os pés de pato, representam uma fatia muito pequena do mercado", lamenta Cláudio Marques.

Quem partiu para os patrocinadores alternativos foi Lissandra Tutty. "Sabia que seria complicado ser apoiada por uma rede de surfwear, então fui atrás de outros investidores", conta Tutty, que é patrocinada pela Unisantos. Para a bodyboarder, as meninas que ainda não conseguiram patrocinadores deveriam investir em linhas de cosméticos, roupas de praia e ginástica, enquanto os meninos poderiam procurar empresas de tênis, sorvete, entre outras.


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