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| Recife, Segunda-Feira, 6 de Abril de 1998 |
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Hemisfério norte OPINIÃO O incêndio das matas de Roraima devastou parte daquele estado, chamou a atenção do mundo, mas não foi capaz de mostrar ao Brasil a vida dos brasileiros que vivem no hemisfério norte. A agenda da questão ambiental é muito forte e baseada em interesses e projeções de instituições estrangeiras que fazem de sua existência a preocupação pela manutenção do verde amazônico. O incêndio, segundo informam as agências de notícias, teve início nas queimadas que índios e agricultores promovem em todo o país, inclusive naquela região. Roraima, que é cortada pelo caudaloso rio Uraricoera - nas margens do qual, segundo a lenda, nasceu Macunaíma - possui dois tipos distintos de vegetação. Entre o sul do estado e Caracaraí existe uma espécie de franja da floresta amazônica. A partir daquela pequena cidade, passando por Tepequem, uma vila no alto de um morro, até o marco BV-8, na fronteira com a Venezuela, há um imenso pasto. Esta área, já no hemisfério norte, é uma das poucas regiões em que é possível criar gado. A outra, naAmazônia, é a ilha de Marajó. O clima é diferente do resto da Amazônia. Boa Vista, a simpática capital de Roraima, não é prisioneira daquele calor senegalesco que costuma abafar a cidade de Manaus. Roraima tem um relação especial com o governo de Cuba, que desenvolveu lá diversas ações na área de saúde, e com alguns norte-americanos. Um deles, Frank McCann, ajudou a criar a Universidade Federal de Roraima, onde, naturalmente, se desenvolve um ativo programa de estudos da região amazônica. Enfim, Roraima é um mundo diferente dentro do mundo brasileiro. Lá está o Pico da Neblina, o mais alto do Brasil, no lado brasileiro da fronteira com a Venezuela. Os venezuelanos, aliás, mantêm uma antiga questão de fronteiras com o Brasil por causa da divisão no norte. Eles reivindicam quase a metade da área de Roraima. Além disso tudo, existem os ianomamis, os índios nômades que transitam entre o território dos países vizinhos sem a menor cerimônia. Eles recebem assistência do governo brasileiro e das organizações não-governamentais de países europeus. Tudo o que diz respeito à Amazônia reverbera em todo o mundo, por causa da capilaridade das ONGs. Elas possuem contatos com vários jornais nas principais capitais do planeta. O incêndio na mata constituiu um crime contra a selva, contra a humanidade, mas foi também uma agressão ao homem que vive naquela região. O trabalho dos bombeiros foi, em grande parte, proteger o homem da devastação proporcionada pelo fogo. Roraima, na Amazônia Ocidental, é a porta brasileira para o Caribe. O incêndio acendeu a preocupação dos preservacionistas, mas não abriu os olhos do cidadão para a realidade do brasileiro que vive no hemisfério norte. Medidas compensatórias É alto o custo que o brasileiro vem pagando para ter uma moeda estável. Nos últimos meses, jornais de todo o país estampam, com uma freqüência assustadora, manchetes nada agradáveis, que refletem o momento difícil enfrentado pela população. Um dia é a taxa recorde de desemprego, outro é o aumento da inadimplência. Tudo contribuindo para o agravamento da crise social. O alívio com o fim da inflação é substituído, agora, pelo desespero gerado com o desemprego e suas conseqüências nefastas. Empenhado em garantir uma economia equilibrada que permita ao Brasil obter o respeito da comunidade internacional e com isso atrair investimentos estrangeiros, o Governo Federal acaba relegando a segundo plano os programas sociais que ajudariam a atenuar a situação. Em relação à questão do desemprego - hoje o problema que mais aflige a população brasileira - algumas medidas compensatórias são mais do que necessárias. Não somente ações voltadas para a geração de emprego, mas também que garantissem o mínimo de amparo ao trabalhador desempregado. Infelizmente, no Brasil, quando os governantes se dispõem a adotar medidas de amparo ao trabalhador, a ânsia em tirar proveito político é muito maior que o interesse em garantir uma conquista social ou, quando muito, compensar as perdas de "pacotes" elaborados por tecnocratas. Programas habitacionais e até mesmo de assistência têm sido lançados e, mal começam a ser implantados, são relançados com outro nome de modo a deixar transparecer para a opinião pública a idéia de operosidade. Toda a jogada de marketing camufla, no entanto, o resultado cruel de um esforço para garantir equilíbrio financeiro. O sucesso dessa jogada é atingido mais facilmente quando o tecnocrata de plantão lança para o público um simpático discurso da austeridade. Quem, por acaso, ousar questionar essa forma de encarar o problema comete, imperdoavelmente, o pecado da demagogia. E, exatamente para não correr o risco de parecer demagogo, é que se ignoram medidas que podem beneficiar ou, no mínimo, oferecer condiçõesmais dignas aos milhares de desempregados, muitos sem chance de conquistar uma nova vaga no mercado de trabalho. Em vez disso, aperta-se ainda mais o cerco a quem se atreve a pagar as contas com atraso, como está para acontecer com os mutuários inadimplentes com o Sistema Financeiro da Habitação. |
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