Recife, Domingo, 5 de Abril de 1998

Diversão de garoto vira crime

De acordo com a nova lei ambiental, os pichadores da cidade podem pegar de três meses a um ano de cadeia

Carlos Costa
Da equipe do DIÁRIO

Com a vigência da nova lei de Crimes Ambientais, 9605/98, uma das preferidas diversão dos garotos de subúrbios - a pichação - deixou de ser delito, e virou crime. Pichar, grafitar ou manchar monumentos e edificações urbanas pode dar de três meses a um ano de cadeia, mais multa referente ao dano causado. A medida visa deixar a cidade livre de mais um incômodo que brota nos grotões de pobreza, acabar com a sanha dos pichadores. Reprimir o grito de jovens pobres, que vivem à margem da sociedade.

A pichação, para a Antropologia e a Psicologia, não é um simples ato de vandalismo. É uma reação natural dos adolescentes - conhecidos pela rebeldia - marginalizados. O que move os componentes das galeras de pichadores, para o antropólogo Marcos Homero, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), é o desejo de ser visto, aparecer. "Picham para contar a história, os riscos que enfrentaram e mostrar o resultado aos amigos. Assistem aos telejornais locais à procura de alguma tomada que mostre a pichação deles", explicou.

Atualmente, a repressão contra os pichadores não tem conseguido resultados. Este ano, a Delegacia de Proteção da Criança e do Adolescente (DPCA) não recebeu nenhuma queixa sobre vandalismo. No Programa de Medidas Sócio-educativas em Meio Aberto, da II Vara da Infância e da Juventude, apenas um menor de 15 anos está cumprindo pena por pichação.

Mas as pichações não param. Um mês depois de reformado, o Liceu de Artes e Ofícios foi vítima de uma galera. "Vamos gastar cerca de R$ 300,00 para tirar as pichações. A tinta usada na pintura do Liceu não existe no mercado, mandamos fazê-la outra vez", contou o diretor da instituição, Roberto Pimentel. O prédio, de sete metros de altura, no bairro de Santo Antônio, sempre foi visado pelos pichadores. "Antes da reforma, tinha pichações até a cumeeira", revelou.

A prefeitura também paga pela rebeldia dos garotos suburbanos. Logo após reformados, os postos de salva-vidas e a pista de skate da avenida Boa Viagem forma pichados. Os armazéns do Cais José Estelita também. De acordo com o presidente da Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb), os gastos com pichações não são computados. "No caso do Cais, conversamos com a empresa responsável pela vigilância do local, que se responsabilizou pela pintura. Quando acabar a segunda etapa das obras, mandarei pintar de novo os monumentos da avenida Boa Viagem", informou. Segundo Sivini, os objetos não são pintados apenas porque foram pichados. "Não queremos entrar numa roda viva. Os pichadores voltam e picham tudo, até os monumentos das praças", comentou.

OUTDOOR

No Recife, mais de dez grupos de pichadores atuam constantemente. Os grupos não se encaixam no conceito de uma gangue, parecem mais uma turma de amigos. Às vezes, têm um líder. O mais respeitado é aquele que tem mais detonas (pichações). Não existe hierarquia no grupo, nem obrigações. Todos usam a mesma linguagem de signos. Picham sempre sua marca (apelidos com letras estilizadas) e embaixo escrevem a marca da galera.

Os grupos se conhecem, levam a mesma vida. Todos pobres, em sua maioria pretos, só andam de ônibus e moram em bairros e favelas da periferia. Bailes funks e a praia são os locais de sociabilidade preferidos. Além das esquinas das ruas próximas às residências.

Assim como suas pichações, vistas apenas como rabiscos que agridem ao patrimônio, suas vidas também passam diante da maioria sem serem entendidas. Como todos os jovens, adoram shoppings, marcas conhecidas, símbolos de status. E todos reclamam do mesmo problema: são expulsos, com freqüência, dos grandes centros de compras pelos seguranças. E tudo que os garotos querem é - como a marca da coca-cola e outros infinitos produtos inacessíveis a eles - ficar estampados feito outdoor.


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