Recife, Domingo, 5 de Abril de 1998

Mangues em diversas épocas

Especialistas discutem a importância de evitar destruição das áreas verdes que sobrevivem através dos tempos

Inácio França
Da equipe do DIÁRIO

Recife, ano 1850 - As ruas do Riachuelo, da União, da Saudade, o Parque 13 de Maio, o Pátio de São Pedro e a Casa da Cultura não existem. Em seu lugar, há manguezais e braços do Capibaribe. Em vez de calçadas de pedras portuguesas, asfalto ou vai-e-vem de pedestres, os guaiamuns e garças povoam a lama do mangue. Trinta anos depois, a área seria um canteiro de obras, com prédios sendo construídos sobre os aterros recém-realizados.

Recife, ano 2005 - Desde o final do século XX, os quase 500 hectares de mangue que sobreviveram à rotina de aterros transformaram-se nas mais concorridas áreas de lazer da cidade. No extenso manguezal do Pina, próximo ao superpovoado bairro de Boa Viagem, um grupo de turistas faz uma excursão ecológica sem precisar sair da cidade.

Por mais incríveis que possam parecer, as duas cenas descritas acima demonstram a mudança no comportamento de uma população que, acostumada durante cinco séculos a aterrar os alagados para ampliar seus domínios, começa a encarar os manguezais como algo valioso a ser preservado. No Recife de 1998, urbanistas, geólogos, ambientalistas e as próprias autoridades municipais debatem a necessidade de redirecionar o crescimento urbano e impedir a destruição das áreas verdes que sobreviveram.

"Para quem mora nas grandes cidades, a qualidade de vida se tornou uma exigência. Para se garantí-la é preciso adotar novas formas de intervenção e planejamento do espaço urbano", avisa a professora e arquiteta Norma Lacerda, do Mestrado de Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Segundo ela, no caso do Recife, é preciso "requalificar os espaços urbanizando favelas, encontrando novos usos para os inúmeros galpões abandonados de indústrias falidas e, principalmente, de conservação de áreas verdes, ou seja, os manguezais que são únicos no mundo. E, por serem únicos, adquirem um valor econômico fundamental na economia globalizada".

A própria Norma Lacerda explica que nem sempre conservar é sinônimo de isolar. "Algumas vezes, se usa o meio ambiente para melhor preservá-lo", afirma a professora. O geólogo marinho Paulo Coutinho, do Laboratório de Geologia e Geofísica Marinha da UFPE, concorda com a urbanista: "Até mesmo um ecossistema frágil como o mangue pode ser utilizado de maneira economicamente viável. Desde que seja de forma racional, respeitando-se tanto a necessidade de lucro dos empresários quanto a ecologia".

"O difícil é convencer o recifense, habituado a considerar maré e mangue como sinônimos de lixeira, a respeitá-los", desabafa o engenheiro Ronald Vasconcelos, responsável pela Diretoria Geral de Meio Ambiente da Prefeitura do Recife. Ele explica que seu maior desafio é controlar a descarga de lixo e de metralha nos sete manguezais remanescentes no município: Pina, Lagoa do Araçá, Afogados, Areias, Jordão, Joana Bezerra e Engenho Uchoa, cujo trecho entre a avenida Recife e o Ibura será transformado no Memorial Chico Science.

Mas, se a arquiteta Norma Lacerda e o geólogo Paulo Coutinho estiverem certos, os moradores da cidade terão de modificar rapidamente seus hábitos. "Se novos prédios forem construídos no manguezal do Pina, por exemplo, os sistemas de esgotos e de transporte de Boa Viagem entrarão em colapso, acelerando a degradação do bairro", adverte a urbanista. Coutinho explica que a poluição das praias estão diretamente ligadas ao fim dos manguezais: "Quanto mais mangue houver nas margens do Capibaribe, mais limpas serão as praias da cidades, pois a vegetação filtra naturalmente boa parte das impurezas trazidas pelo rio".


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