Recife, Domingo, 5 de Abril de 1998

El Freak

Lúcia Guimarães

Os passageiros que viajavam no metrô entre Queens e Manhattan num dia quente de 1981 podem ter assistido sem querer, ao nascimento de uma carreira. Com certeza, levaram um susto. O garoto franzino, ainda com sotaque de imigrante colombiano tomou o microfone da cabine do condutor e anunciou: "O trem é nosso!" e começou a contar piadas pelo alto falante.

A estripulia durou só quatro estações e ainda hoje John Leguizamo insiste que se tivesse sido mais engraçado poderia ter viajado até Manhattan. Acabou preso e o currículo de encrencas só foi interrompido quando um professor sugeriu que ele cobrasse para fazer rir.

Hoje, aos 33 anos, ele cobra caro e não falta público. O teatro Cort da Broadway está lotado e a platéia em grande parte latina saúda com urros o começo de Freak (Doidão), o espetáculo apelidado pelo ator-autor de uma semi-demi-quase-pseudo-autobiografia.

A mãe de Leguizamo caiu em prantos quando assistiu a pré-estréia e se trancou em casa durante vários dias. Perguntou se a vida do filho tinhasido tão horrível quanto o desfile de situações no palco sugeria. Tinha. Mas felicidade não é bom material para comédia.

Fazendo sozinho 40 personagens, Leguizamo extrai do inferno pessoal tudo o que pode. Do tio que era uma tripla ameaça - latino, surdo e gay - à avó alcóolatra que atirava Jack Daniel€s no olho dele para espantar o demônio. Sem recursos cênicos e troca de figurino, Leguizamo entra e sai da pele de parentes e imigrantes de várias nacionalidades com tal rapidez que a gente começa a suspeitar que a avó dele tinha uma dose de razão.

A exclusão, o senso de inferioridade e a violência na vida privada do imigrante latino são expostos sem a pose de vítima que tanto vicia as minorias aqui.

Ao contrário de negros americanos que descobriram a África e usam o termo african american com freqüente oportunismo, os latinos que conseguem se dar bem na América preferem ser assimilados a qualquer preço.

John Leguizamo é o primeiro ator e cômico latino capaz de segurar a atenção dos brancos sem despertar condescendência (e isso aí, pessoal, aqui nos Estados Unidos nenhum de nós é branco, nem se usar proteção solar 45).

O texto de Freak não provoca tanto quanto o dos monólogos hilariantes que celebrizaram Leguizamo no circuito off-Broadway. Freak é catarse autobiográfica e tentativa de espantar demônios.

Quem viu Leguizamo no cinema tentando matar Harrison Ford em Uma Segunda Chance e dando cabo de Al Pacino em O Pagamento Final não imagina como este Macunaíma hiperativo cresce num palco.

Em Freak ele pondera se a ausência de latinos em Jornada nas Estrelas era sinal de que não havia planos de manter monstros por aqui muito tempo. Se depender de John Leguizamo, os cucarachas vão continuar tomando o microfone na marra.


Potência máxima
Nudez e castigo
Melting pot

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