Recife, Domingo, 5 de Abril de 1998

Projeto Cingapura

Caio Blinder

Rudolf Giuliani, o prefeito xerife de Nova Iorque, está nas alturas de popularidade, obsessão com lei e ordem e divagações sobre a cidade dos seus sonhos.

Giuliani agora deu para citar Platão e a noção da sociedade ideal. O prefeito filósofo quer governar e divagar em um estado ideal de limpeza ou segurança. Apesar desta paixão platônica, a musa de inspiração de Giuliani parece ser Lee Kuan Yew, o político que governou Cingapura com um punho de ferro.

Em menos de 40 anos, Lee Kuan Yew transformou o país-cidade de um porto controlado pela máfia chinesa na sociedade mais próspera e ordeira da Ásia.

Giuliani encontrou sua alma gêmea na cruzada contra o crime, pornografia, barulho e sujeira. O normal é comparar Nova Iorque a Paris ou Londres, mas Cingapura?

A comparação deixou de ser forçação de barra. Pense em duas cidades ricas e cosmopolitas governadas de forma autoritária, com a lei cumprida ao pé da letra?

Onde mais as pessoas podem ser multadas, por urinar na rua, ou ser tratadas como párias se acenderem o cigarro dentro de um restaurante? Nova Iorque e Cingapura fazem uma puritana marcação corpo a corpo de seus cidadãos e coitado de quem atravessar a rua fora da faixa.

É tanto excesso que, às vezes, nos esquecemos da validade de algumas medidas draconianas. Se Giuliani está realmente falando sério em obrigar os motoristas a cumprirem o limite de velocidade de 45 quilômetros por hora nas ruas da cidade, basta seguir o exemplo de Cingapura.

Lá os táxis e veículos comerciais são equipados com sirenes ativadas automaticamente se ultrapassarem o limite de velocidade. O problema é que a barulheira poderá ficar ainda mais alucinante na Manhattan dos alarmes de carro e das ambulâncias.

Com a crise nas vizinhanças de Cingapura, está meio fora de moda exaltar os valores asiáticos. Isso não é problema para Giuliani. Ele tem nome próprio para sua cruzada de lei e de ordem. Fala em restaurar a civilidade, embora raramente a pratique quando é criticado.

No geral, Giuliani é mais civilizado do que sua alma gêmea. É petulante, mas no limite bate boca com os críticos. Lee Kuan Yew, hoje semi-aposentado, preferia bater mesmo.

Alguns dizem que Giuliani está ficando meio louco, uma mistura de Mussolini e Napoleão. Mas é inegável que o grosso da população aceita o prefeito e suas manias. Talvez o povo tenha uma queda para a flagelação.

Não ficará chocado quando Lee Kuan Yew presentear Giuliani com uma daquelas varas de junco usadas para vergastar o mau cidadão. Em Cingapura já é a punição ideal.


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