Recife, Domingo, 5 de Abril de 1998

Anjos cariocas e paulistas

Lucas Mendes

Olhe com cuidado e você vai ver que o rapaz alto, sorridente e simpático não está sendo apenas gentil dando informações aos perdidos. Ele está vendendo drogas.

E aquele outro, um pouco mais velho e roupas mais caras, conversando com gestos fraternais com a moça morena bonitinha que acabou de descer do ônibus. Ele está tentando convencê-la a entrar para o time de prostitutas.

Você também vai ver três Anjos da Guarda com seus blusões e boinas vermelhas patrulhando o terminal e fazendo outro tipo de recrutamento na noite novaiorquina.

O rapaz alto sorridente corre antes de levar o bote dos Anjos, mas eles conseguem convencer a morena a não aceitar a oferta do gigolô e considerar a possibilidade de ser Anjo da Guarda nas ruas de Nova Iorque.

Há dezoito anos, quando as drogas e os crimes explodiram nas ruas da cidade, Curtis Sliwa e mais treze amigos criaram os Anjos da Guarda para patrulhar o metrô. Os quixotes pareciam ridículos com aquelas boinas e com freqüência levavam cacete firme das gangs e da própria polícia.

Não pareciam ter muito futuro, mas um grupo de comerciantes e donos de restaurantes em volta de Times Square fez fé nos Anjos e ofereceu a eles uma casa com telefone em troca do patrulhamento da vizinhança infestada de drogas e prostitutas. Deu certo.

Com grupos concentrados em pequenas áreas eles limparam várias ruas, quarteirão por quarteirão. Em poucos anos, os Anjos chegaram a ter uma força de quase 1.500 jovens de ambos sexos, a maioria recrutada das ruas da cidade. Eles não carregam armas, mas são treinados em artes marciais.

O prefeito Giuliani deu legitimidade ao grupo e a polícia, em vez de pancada, passou a dar apoio. Curtis Sliwa virou celebridade e hoje tem dois programas de rádio. Seus Anjos se espalharam por 42 cidades nos Estados Unidos e de sete países: Inglaterra, Japão, Suécia, Dinamarca, Alemanha, Itália e Rússia.

Mas na Nova Iorque que eles ajudaram a proteger, os Anjos estão caídos. Tem pouco mais de cem afiliados e não conseguem mais verba nem auxílio dos comerciantes.

Curtis acha que seus Anjos funcionam melhor nas cidades com maior criminalidade e me disse que gostaria de abrir suas asas no Rio e em São Paulo.

Ele não quer dinheiro, mas gostaria de receber um convite das prefeituras e de associações comerciais para fazer uma experiência de seis meses nas duas cidades. Anjos de boina no verão brasileiro? Será que vão conseguir alguma coisa além de esquentar a cabeça?


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