(Atualizado no dia 3/4/1998)

O que fazer para se livrar da seca

Devem incluir uma série de ações que ajudem os criadores a enfrentar os problemas

Clóvis Guimarães Filho

Confirmado o cenário de precipitações bem abaixo da média, insuficientes para viabilizar qualquer plantio neste semestre, as estratégias emergenciais para o pecuarista enfrentar os problemas resultantes, baseadas na experiência internacional, devem incluir ações de ordem individual, a serem desenvolvidas pelo próprio pecuarista, ao nível da propriedade da comunidade, e ações de ordem institucional, que podem ser desenvolvidas por comitês municipais, coordenados pelos secretários municipais de agricultura e compostos de representantes de instituições públicas que atuam na região o do representantes de produtores, com poderes emergenciais claramente definidos.

A um comitê municipal, por exemplo, além de captar e coordenar a ajuda externa, caberia: organizar, apoiado em fontes secundárias de informação, mapas das áreas mais vulneráveis, monitorando, com base em dados do INPE/INMET e de campo, a intensidade e os efeitos de estiagem em toda a sua duração; montar um sistema de circulação da informação entre os diversos atores, em todas as áreas afetadas; estabelecer acordos e parcerias no sentido de mobilizar áreas menos ou não vulneráveis à seca (o potencial de apoio dos perímetros irrigados tem que ser explorado); implantar medidas para garantir o armazenamento estratégico e o suprimento preferencial às áreas atingidas de subprodutos agro-industriais que possam ser usados como alimentos animais; mapear, recuperar e planejar o uso da rede de poços e de açudes de média e grande capacidade; montar um esquema de assistência veterinária preventiva e, finalmente, implementar um programa emergencial de capacitação do produtor em técnicas de aproveitamento de materiais diversos para alimentação dos rebanhos.

Dois outros tipos de ação se impõem para atenuar os efeitos de um quadro de estiagem. Como a eficácia das medidas acima depende, substancialmente, da redução gradativa da população animal das áreas atingidas, esse progresso tem que ser apoiado por medidas apropriadas para manutenção dos preços de produtos e insumos aum nível aceitável, através de subsídios aos canais de comercialização ou de intervenção direta do poder público, pela opção preferencial na compra e bate de animais (merenda escolar municipalizada pode ser um importante instrumento de apoio). O outro ponto fundamental é o estabelecimento de um plano de crédito específico para este período, voltado para a aquisição de forragens e rações para os animais, possibilitando o produtor preservar um núcleo de matrizes que lhe permita a recuperação na atividade. A Austrália, maior exportador de carne do mundo, subsidia 50% de custo das rações para os pecuaristas nas áreas oficialmente declaradas em estado de seca.

No que concerne as estratégias a serem seguidas pelos produtores, aquelas ao nível de propriedade ou de comunidade, elas implicam, em geral, decisões de transferir o rebanho para outras áreas, vendê-lo ou alimentá-lo em níveis de sobrevivência. A combinação dessas opções quando possível, deve ser a preferida. As medidas mais importantes abrangem a apartaçãodos bezerros, a redução numérica do rebanho, a separação dos animais em categorias, a utilização uniforme da forragem disponível nos pastos, a atenção especial ao suprimento d€água, o controle sanitário, o maior controle de predadores, o controle da reprodução e, finalmente, a suplementação alimentar. Esta, juntamente, com a redução numérica do rebanho, constitui a base de toda a estratégia.

Pela natureza de algumas ações sugeridas, um plano com esta abrangência, para proporcionar os melhores resultados, já deveria ter sido iniciado. Somente a conjunção harmônica dessas medidas dará, ao produtor do semi-árido, a base necessária para atravessar o período de estiagem, preservando uma condição mínima de capital que lhe possibilite iniciar um processo de recuperação, passado o período crítico. O que é de se lamentar é que essa situação ocorra, mais uma vez, em uma região onde a pesquisa já constatou ser possível em, pelo menos, metade da sua área, fazer uma pecuária com índices de desempenho comparáveis aos das melhores regiões pastoris do país.

Pesquisador do CPATSA EMBRAPA

Áreas salinizadas são recuperadas

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