(Atualizado no dia 1/4/1998)

Segurança e privacidade ameaçadas

As informações sobre os milhões de internautas são hoje uma mercadoria à disposição de quem pagar por elas

Regina Lima
Especial para o DIÁRIO

WASHINGTON - A Internet está colocando em extinção dois direitos inegáveis de qualquer pessoa: segurança e privacidade. Se você fizer uma investigação rápida sobre a quantidade de informações pessoais, e até sigilosas, que você passa para desconhecidos sempre que acessa a Internet, vai sentir dificuldade em dormir de noite. Mesmo que você nunca tenha, por exemplo, digitado o número do seu cartão de crédito numa home page, ainda assim, seus passeios pela Web são um livro escancarado, repleto de informações que podem ser utilizadas sem seu conhecimento e, o que é muito pior, sem seu consentimento.

Pode parecer paranóia, bem naquela linha do grande irmão do livro 1984 de George Orwell, que tinha conhecimento de todos os passos de cada um dos seus governados. Mas a verdade é que as informações e dados pessoais que milhões de internautas passam diariamente para a Rede são hoje uma mercadoria à disposição de quem estiver disposto a pagar por ela.

Você por acaso já preencheu formulário de informações, com dados pessoais, numa daquelas sessões de inscrição em uma home page? Alguma vez você já recebeu e-mail de empresa vendendo produto ou fazendo algum tipo de marketing? Se a resposta a essas duas perguntas é um sim, então as informações que você passou, de livre e expontânea vontade, já são mercadorias online. Além desses dados que você fornece livremente, tem os que são pescados pelos sites que você visita.

Aqui nos Estados Unidos o número de empresas que arquivam e fornecem dados pessoais coletados via Internet está crescendo assustadoramente. Os maiores compradores desse tipo de informação são empresas de marketing, mas nada impede que qualquer internauta pague entre US$7 e US$25 por informações como nome completo de uma determinada pessoa, data de aniversário, endereço, telefone, e por aí vai.

Como a maioria dos serviços públicos americanos está informatizada, fica fácil até pegar o número da identidade e o histórico de crédito de qualquer cidadão. Na verdade, os próprios governos estaduais aqui estão lucrando com avenda dessas informações. O estado de Maryland, por exemplo, faturou US$12,9 milhões, em 1996, com a venda de informações sobre proprietários de veículos, o que incluía até o número da carteira de motorista. Um negócio absolutamente dentro da lei, uma vez que não existe nada regulamentando o direito a privacidade online.

COOKIES

Com o avanço da informatização em todos os setores, qualquer passo que você der, significa um arquivo criado sobre você em algum lugar. O simples ato de surfar na Web é um dos maiores exemplos disso. Quer dar uma checada? Basta reconfigurar o seu browser para avisar sempre que um cookie estiver sendo instalado em seu sistema. Cookies são linhas de códigos que os Web sites transmitem para o seu browser e que permitem que eles façam um acompanhamento eletrônico de todos os seus passos. A esmagadora maioria das home pages fornece esses dados para empresas de marketing e propaganda, além de usá-los como monitoramento do público.

Eu sabia da existência dos cookies, mas nunca tinha percebido seus efeitos e a quantidade deles, até que um dia decidi fazer o meu monitoramento. Eles estão em toda parte! Uma das formas de fazer essa conferencia é abrir o menu de preferências do seu browser e configurá-lo para lhe avisar sempre que um cookie está sendo instalado.

À medida que você navega na Web, vai aparecendo caixas de diálogo pedindo permissão para a instalação dos cookies. Você diz sim ou não. O problema é que em alguns sites, se você diz não a um cookie, você não tem acesso à página. Essa história da caixa de diálogo ficar aparecendo a cada momento é chata, mas vai lhe dar uma idéia de como seus passos são eletronicamente marcados.

Os cookies foram criados para facilitar a sua movimentação nos sites. Antes deles, cada movimento seu em diferentes páginas de uma home page era como se você tivesse acabado de entrar. Os cookies ajudam a identificar sua entrada inicial no site, o que permite você ir abrindo as páginas com mais rapidez. Eles são uma identificação eletrônica. Em alguns sites duram apenas o tempo da sua visita, mas em outros eles ficam anos. Os sites não identificam você pelo nome simplesmente pelo cookie, mas através deles podem monitorar todos os seus movimentos.

Se você quer saber mais sobre cookies, faça uma visita ao JunkBusters, que fica em http:// www.com/ht/en/index.html. O negócio dessa home page é ajudar os usuários de computadores a lidarem de igual para igual com as empresas de marketing que exploram as informações passadas online. E é um negócio mesmo, porque o JunkBusters vende softwares que limitam a ação invasiva dos sites.

Um dos melhores sites do gênero é o Anonymizer (http://www.anonymizer.com), que tem versão em português. Uma das primeiras informações que o Anonymizer lhe fornece é o que o site sabe sobre você. Diz qual o tipo de computador que você está usando, a home page que você visitou antes, o nome do seu servidor e mostra até a sua localização num mapa. Isso já lhe dá a idéia da sua vulnerabilidade. Pelo menos sete mil internautas usam rotineiramenteo Anonymizer como forma de preservarem a identidade.

Se os hackers, ou invasores de sistemas de computação, preocupam até o Pentágono, as empresas privadas que usam sistemas em network se sentem ameaçadas ao cubo. Se o Departamento de Defesa americano, criador da Internet, se vê às voltas com invasões corriqueiras, que dirá empresas que usam sistemas à disposição de qualquer um no mercado?

Uma prática que está crescendo no mercado americano é a contratação de empresas especializadas em descobrir fragilidades nos sistemas que guardam dados sigilosos. Essas empresas têm a mesma função das empresas de vigilância ou segurança de valores. A diferença é que, no lugar de carros blindados para proteger os bens, esses criadores de software instalam firewalls nos sistemas de computação para proteger arquivos. Uma firewall (literalmente, parede de fogo) é um dispositivo que impede o acesso de pessoas não autorizadas ao sistema. Além das firewalls, essas empresas fazem todo o mapeamento do sistema e de seus usuários e ficam num monitoramento constante.

Uma dessas empresas é a Trusted Information Inc., que começou em 1993 fornecendo software de graça em sua home page (http://www. tis.com). O Internet Firewall Toolkit continua sendo oferecido aos internautas pela ITS, além de informações sobre serviços e seminários sobre segurança na Internet. Mais de 50 mil empresas já fizeram o download dessa firewall, o que lhe dá uma idéia do alcance desse mercado.

Pode não ser tão nebuloso como previu George Orwell, mas o grande irmão está vivo e ativo na Web. Como a Internet não tem fronteiras, vale a pena ficar em dia com a movimentação e as propostas da Privacy International, que é uma entidade internacional de direitos humanos que luta contra a violação da privacidade: http://www.privacy.org/pi.

reginalima@yahoo.com


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