Recife, Domingo, 5 de Abril de 1998

O gentleman do futebol (entrevista com Mauro Fernandes)

Márcio Cruz e Márcio Markman
Da equipe do DIÁRIO

O técnico Mauro Fernandes da Silva, 42 anos, não é um estranho no futebol pernambucano. Em 95, em sua primeira aparição por estas bandas, ele levou o Náutico ao vice-campeonato. Como a cultura do futebol brasileiro não reserva espaço aos vice-campeões, na galeria dos vencedores, a passagem de Mauro não chegou a causar alarde. Como bom mineiro - nasceu em Sete Lagoas - Mauro Fernandes soube a hora certa de voltar. Aliás, para ele, um título em Pernambuco ainda é algo que chama a atenção no currículum de qualquer técnico, apesar da clara decadência do futebol de nosso estado. No comando do Sport, Mauro Fernandes vem mantendo o pulso forte, com muito jogo de cintura no trato com os jogadores, para transformar o favoritismo em realidade, dando o tricampeonato ao rubro-negro. O mineiro é uma pessoa incomum no futebol. Articulado, elegante e passando longe da figura do mascarado, conversa com franqueza, qualquer que seja o assunto. Em um bate-papo com o repórter Márcio Cruz, e com o editor de Esportes, Marcio Markman, Mauro Fernandes falou sobre a difícil missão de ser técnico no Brasil, os campeonatos que o Sport vem disputando, os adversários, a Seleção Brasileira e suas chances na Copa. Sem se esquivar das perguntas e, ao mesmo tempo, sem atacar os companheiros de profissão, o técnico mostrou uma outra faceta, surgindo como uma espécie de gentleman do futebol. Mas, sem perder o jeito manhoso que todo mineiro tem, não deixou de dar suas alfinetadas. O técnico Zagallo e sua criação - o incompreendido (incompreensível) número um que o digam.

DIÁRIO DE PERNAMBUCO - Quais as dificuldades que um treinador encontra no início da carreira?
Mauro Fernandes - "Encerrei a minha carreira de jogador no Botafogo, da Paraíba, em 84, com apenas 30 anos. Sempre fui líder e capitão nos times que joguei. Quando assumi o papel de técnico, tudo passou a ser diferente. Deixei de ser comandado para comandar. Como treinador, você tem que sempre ser o primeiro a chegar e o último a sair. Tenho que coordenar tudo e ainda dar uma satisfação a toda diretoria, torcida, imprensa. Se o time vai bem, tudo bem, os jogadores ganharam, tem todo um trabalho de equipe. Se o time perde, o treinador perdeu. Infelizmente é assim. O emocional do treinador é muito importante, já que, mantendo o equilibrio, fica mais fácil chegar ao sucesso"

DIÁRIO - Como é que você analisa a profissão de técnico no Brasil? Geralmente, o treinador não consegue ter a estabilidade suficiente para desenvolver o seu trabalho.
Fernandes - "Infelizmente, no Brasil não existe estabilidade. Às vezes, o próprio dirigente do clube investe muito na contratação de treinador como a solução dos problemas. Quando o treinador tem a possibilidade de fazer um trabalho de curto a longo prazo, a tranquilidade é maior. Os treinadores que dirigem grandes equipes são sempre os mais visados, pois a cobrança pelos resultados é maior. As vezes quando os resultados não correspondem, todos passam a olhar com desconfiança e acabam tirando a instabilidade do treinador".

DIÁRIO - Quer dizer que você é aquele treinador que não admite qualquer interferência no seu trabalho?
Fernandes - "Não admito, pois quando se contrata um treinador, ele tem que ter autonomia para mexer no seu departamento, no caso, em seu trabalho no campo. A responsabilidade de escalar o time é dele, já que ele é sempre o responsável. Temos que matar um elefante pela manhã, um a tarde e um à noite. Essa é a vida do treinador. Por isso, o desgaste é muito grande. Todo dia temos que estar provando a competência e que temos condições de realizar um grande trabalho".

DIÁRIO - O que dá para sentir no Sport, é que há um sentimento muito forte entre os jogadores no sentido de se buscar o título de campeão pernambucano invicto. Realmente existe este pensamento?
Fernandes - "Conquistar o título é uma coisa importantíssima para o clube, que vai se destacar ainda mais no cenário nacional. No Sport, que só tem três tricampeonatos até hoje na história, seria uma façanha. Mas, conquistar um campeonato invicto é muito difícil. Então a gente trabalha em cima de um objetivo maior, que é ser campeão, e por isso venho sempre trabalhando a cabeça dos jogadores para o caso de perder a invencibilidade, para que eles saibam que do outro lado tem equipes com o mesmo objetivo".

DIÁRIO - Como é o seu relacionamento com os jogadores. Você faz ao estilo democrático ou é o que o pessoal chama de linha dura?
Fernandes - "Sempre fui uma pessoa que agrego muito o grupo e prezo por essa união. Em todos os clubes que trabalhei nunca houve uma briga entre jogadores, nem indisciplina. Primeiro, você tem que dar o respeito para poder ser respeitado e, dentro do próprio Sport, tenho uma liberdade muito grande com cada jogador. Converso, brinco, tenho um diálogo aberto. Mas, na hora do trabalho,, só com a maneira de olhar, eles já sabem se estou gostando ou não. Os jogadores sabem que, no Sport, existe um comando. Não abro mão em hipótese alguma do meu comando".

DIÁRIO - Quais são as características das equipes treinadas por Mauro Fernandes? Quais são as marcas do seu trabalho?
Fernandes -" Todas as equipes que trabalhei têm uma filosofia de jogo que éo toque de bola rápido, a velocidade e muita ofensividade. A prova disso é que o Sport já fez quase setenta gols nesta temporada, em jogos oficiais. Jogamos com três atacantes. O Leandro, por exemplo, tem uma função ofensiva até maior que a do próprio Leonardo. O Leandro fica sempre fixo e aberto pelo lado esquerdo e quem tem mais liberdade para a movimentação é o Leonardo e o Jackson, que é o pulmão do time. Leonardo, hoje, tem uma função diferente.

DIÁRIO - Você parece ser uma pessoa vaidosa. Como é que você coloca a vaidade dentro do seu trabalho?
Fernandes - "Em termos de se vestir sempre procuro o melhor, já que me sinto muito bem assim. As pessoas públicas são muito notadas. Sei que escuto muitos comentários, até que enumero o meu guarda roupa para não repetir as peças. Não ligo para estas brincadeiras. Para mim isso é uma coisa importante, não só para mim, como para o clube que representamos. Quem dirige um grande clube tem que estar sempre bem vestido e é o meu caso. Só não tenho vaidades pessoais. Minha gana éa de ganhar o título"

DIÁRIO - Leonardo desempenha no Sport uma função que seria o que o técnico Zagallo tenta definir como número 1?
Fernandes - "É mais ou menos essa função que ele faz. Só que esta história de número um não existe, isso é besteira, pois nunca vi um jogador fazer apenas uma função. Você vê que o nosso time, só no estadual, fez 35 gols em onze jogos, que é uma média altíssima. É um time que jogou com o América Mineiro e, quando eles esperavam um time retrancado, surpreendemos com muita ofensividade. A própria imprensa local teceu vários elogios à maneira da equipe atuar. No Brasileiro pretendemos manter essa característica, pois só ganha jogo quem faz gols. Vamos ter sempre essa filosofia de trabalhar em cima do resultado, seja dentro ou fora de casa".

DIÁRIO - Qual a avaliação que você faz do nível do Campeonato Pernambucano deste ano? Muita gente tem falado sobre a facilidade que o Sport está encontrando em rumar para o tricampeonato
Fernandes - "Não existe facilidade e ela só se traduziu pelo que o Sport mostrou dentro de campo. Encontramos adversários muito dificeis pelo caminho e nos momentos de maior dificuldade os jogadores se superaram. O Sport tem uma experiência e uma maturidade onde é difícil o time se abalar com uma pressão. O nível do campeonato pode melhorar nesta segunda fase. Tanto Náutico, como Santa Cruz, que são grandes equipes da capital, têm a obrigação de buscar reforços para tentar impedir que o Sport também vença a segunda fase. Também temos o Central e o Porto, duas equipes que mostraram um equilibrio muito grande nessa primeira fase, e que serão adversários fortíssimos nesta nova etapa".

DIÁRIO - É mais fácil mostrar competência no Campeonato Pernambucano dirigindo o Sport, que é um clube mais estruturado?
Fernandes - "Quando cheguei aqui, em 95, vim para o Náutico montar o time e peguei até alguns jogadores que estavam sendo renegados no clube, como o Paulo Roberto e o Paulo Leme, e tomo mundo dizia que o Sport seria o campeão com os pés nas costas, por que tinha o melhor time. Mas, se você não trabalhar e não se aplicar você não ganha nada. A prova é que o Sport, mesmo com o supertime que tinha, ficou fora das finais do campeonato, e a disputa aconteceu entre o Náutico e o Santa Cruz, que acabou campeão. Outro exemplo é o chamado time dos sonhos do Flamengo, que tinha no ataque jogadores como Sávio, Edmundo, Romário e outras feras como Mancuso, Marques e não ganhou nada. A partir do momento que não se tem comando e um trabalho sério, não se alcança objetivos".

DIÁRIO - Depois da conquista da primeira fase do estadual, o Sport terá mais condições de se dedicar à Copa do Brasil?
Fernandes - "Não podemos relaxar no estadual, já que buscamos o tricampeonato. Só que, nesta segunda fase, vamos ter um tempo maior de trabalho e preparação, porque não vamos ter tantos jogos seguidos. A própria tabela está dando essa folga, com intervalos maiores entre os jogos. Estamos preocupados exclusivamnte com o jogo contra o América, porque não adianta ninguém achar que já estamos classificados. É um jogo importantíssimo e convoco atorcida para lotar o estádio e nos incentivar. Com a campanha do governo, fica mais fácil ir ao estádio, mas como não há promoção na Copa do Brasil, que é o caminho mais curto para se chegar à Copaa Libertadores, peço um pouco de despreendimeto de todos para que o Sport tenha o incentivo que merece".

DIÁRIO - Com relação ao Brasileiro, uma competição importante, que acontece no segundo semestre, você pensa em pedir reforços? A estrutura da equipe deve mudar?
Fernandes - "O Sport tem uma estrutura boa para iniciar o Campeonato Brasileiro mas, como se trata de uma competição muito difícil, precisamos contratar mais uns três jogadores. Por enquanto, neste primeiro semestre, que estamos disputando a Copa do Brasil e o estadual, já temos uma equipe com condições de brigar. Só que, em um Brasileiro, são 25 jogos e as dificuldades devido à contusões e suspensões, aumentam. As viagens seguidas também aumentam o desgaste do atleta e temos que ter um grupo à altura. Quando terminarmos o primeiro semestre ainda vamos ter um mês emeio para contratar e preparar adequadamente a equipe até a estréia. Até o rendimento na Copa do Brasil e no Pernambucano servirá como parâmetro para ver quais os setores mais carentes".

DIÁRIO - Como você vê a preparação e as chances da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da França? Pelo que você falou sobre o número 1 de Zagallo, parece haver alguma crítica sua sobre o trabalho dele à frente da Seleção?
Fernandes - "A Seleção Brasileira está vindo de um longo tempo de laboratório e, como está chegando na hora de definições, Zagallo está botando os mesmos jogadores que estiveram na Copa do Mundo de 94. Estou temeroso porque acho a média de idade da seleção é muito alta e vamos jogar na França com o clima muito quente. Se não houver uma preparação adequada, já que no Brasil o tempo de preparação é sempre muito curto, podemos perder muito na criatividade do jogador, devido ao desgaste".

DIÁRIO - Quais os jogadores que poderiam mudar o perfil da Seleção? Tem alguém que você gostaria de ver no grupo que vai à Copa e que andasem vez?
Fernandes - "É sempre difícil apontar nomes. Mas eu poderia citar o Giovanni, do Barcelona. Na sua última partida pela Seleção, no Serra Dourada, ele fez dois gols e deu assistência para outros. Na minha forma de entender, ele seria o homem ideal para fazer aquele número 1 que Zagallo tanto quer, encostando bem em Romário e Ronaldinho".

DIÁRIO - Quais são os principais adversários do Brasil. Você vê alguma possibilidade de surgirem algumas surpresas?
Fernandes - "Atualmente as seleções africanas são fortíssimas. É um futebol de força, habilidade e muita correria. Já fomos surpreendidos por eles nas Olimpiadas e isto pode se repetir na França. Respeitando a tradição, os nossos principais adversários serão Argentina, Alemanha, Itália, França e Inglaterra. Tenho certeza que esse ano as dificuldades serão bem maiores que nos Estados Unidos, onde o Brasil jogou um futebol mediano e acabou ganhando o tetra".

DIÁRIO - Dos jogadores que você viu jogar, quais os lhe impressionaram mais? Se você pudesse citar três, quais seriam?
Fernandes - "Nenhum me impressionou tanto como o Pelé. Dirceu Lopes, ex-Cruzeiro, também foi um jogador formidável e o próprio Tostão, pela genialidade que ele tinha, a visão de jogo. Hoje, eu tenho no Sport um jogador que eu reputo do nível do Dirceu Lopes. Trata-se do apoiador Jackson. Para mim é um jogador quase compelto que só não foi lembrado por Zagallo porque o futebol nordestino não é visto com bons olhos".

DIÁRIO - O que você costuma fazer quando não está envolvido com o futebol. Como é o Mauro Fernandes, cidadão comum?
Fernandes - "Sou uma pessoa caseira, mas gosto de sair para um bom restaurante, ouvir música, ver televisão, cinema, teatro e, sempre que tenho tempo, procuro ler um bom livro. Adoro música sertaneja e sou uma pessoa bem tranquila nesse sentido. Não sou de ir para festas, noitadas e sou muito reservado, até mesmo pela profissão que ocupo".

DIÁRIO - Para finalizar, qual o sonho do técnico Mauro Fernandes?
Fernandes - "Meu sonho é trabalhar com honestidade, sem atropelar alguém, e com os meus esforços próprios. Sou uma pessoa que tenho objetivos na vida, mas quero seguir sempre na trilha da dignidade sem ter que prejudicar os outros para subir na vida. Esse vai ser o meu valor profissional".


Fale conosco diario@dpnet.com.br

MAPA BRASIL ECONOMIA ESPORTES HISTÓRIA HUMOR
INFORMÁTICA INTERIOR MUNDO VEÍCULOS VIAGEM VIDA URBANA VIVER