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| Recife, Domingo, 5 de Abril de 1998 |
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Chateaubriand OPINIÃO Jornalista, advogado, escritor, senador, embaixador, fundador do Museu de Arte de São Paulo e dos Diários Associados. Uma das poucas coisas que o paraibano Assis Chateaubriand Bandeira de Melo não fez durante seus 76 anos foi parar. Como ele mesmo definia, teria "toda a vida para descansar" e enquanto vivo estivesse, estaria marcando a história deste País, seja pela sua decisiva participação na construção de um dos maiores impérios de comunicação do Brasil, seja pela sua atuação como homem público sempre preocupado com as questões relacionadas ao povo brasileiro. Um intelectual que conhecia profundamente a língua e que criou uma obra que continua gerando frutos. Hoje, são 11 jornais e mais uma dezena de emissoras de rádio e televisão espalhadas por todo o território nacional. Após trinta anos de sua morte, Assis Chateaubriand ainda marca profundamente a história deste País. Toda a sua vida foi marcada pela vocação para criar e agir. Com pouco mais de vinte anos estava formado em advocacia pela Faculdadede Recife, onde três anos depois já estaria lecionando como professor de Direito Romano. No mesmo período, dava seus primeiros grandes passos no jornalismo, começando como repórter neste DIÁRIO DE PERNAMBUCO, onde chegou a redator-chefe. Mas, foi na capital federal que Assis Chateaubriand mostrou a que veio. De uma simples função de redator do Correio da Manhã, passou a ser correspondente na Europa. Retornando ao Brasil em 1924, para comprar O Jornal, o primeiro embrião de uma das maiores redes de comunicação que este País sediou: os Diários Associados. A partir de O Jornal, a rede de Chateaubriand se estabeleceu no país com 30 jornais diários, revistas e agências de notícia e publicidade. Como se não bastasse, em 1935, o paraibano estaria lançando a Rádio Tupi do RJ, primeira de uma série de 25 outras potentes emissoras que surgiram pelo Brasil. E 15 anos depois seria a vez da televisão, especificamente a TV Tupi de São Paulo, o embrião de outras 18 emissoras ramificadas em todo o Brasil. Foi assim, estabelecido pelo território brasileiro, como o grande comandante da comunicação, que Assis Chateaubriand se tornou senador pela Paraíba e Maranhão e coordenador de uma série de campanhas que marcaram o Brasil: fortalecimento dos aeroclubes brasileiros, a redenção das crianças, os Bônus da Guerra, dos cafés finos e tantas outras. Foi através dele que o país se fortaleceu no âmbito das comunicações sociais e por ele que se consolidou nos 74 anos de vida dos Diários Associados. Filhos da televisão Cresce na sociedade a repugnância pela inversão de papéis que se observa na televisão. A Constituição e as leis definem a televisão como instrumento privilegiado que o Estado concede ao particular, para que este forneça à clientela a informação. E também incentive as aptidões artísticas e promova a difusão dos valores éticos sobre os quais estão as instituições nacionais. Embora se credite à televisão privada o direito à justa remuneração do investimento, o lucro em si não se pode constituir no elemento definitório da linha de atuação das emissoras. A norma é esta. Mas, não é o que sucede. A busca alucinada por pontos na escala da audiência descamba para a grosseria e o despudor. A guerra por mercados transforma a televisão numa loja de secos e molhados. Não raramente, a atmosfera que envolve determinados programas - alguns deles paradoxalmente definidos como de horário nobre - assemelha-se à névoa em que respiram torpezas. Televisão, onde a violência e a exploração do sexo viram símbolo para a descaracterização moral da psicologia coletiva, não cumpre seu papel. E encenação do ridículo e do inusitado chega a ser tida como parâmetro do êxito. Daí que aberrações fazem auditórios internos delirarem estranha satisfação. Não por acaso jornais deste e do outro hemisfério vivem a destacar preocupantes ações de crianças e adolescentes. Desde muito, o porre do rapaz e da mocinha não mais chama a atenção de ninguém. O estágio é outro. Menores impúberes, meninos que julgaríamos verdes para as realidades da vida, disparam balaços no peito do colega, ou incendeiam índios com gasolina. Um minuto de reflexão basta para sugerir que a violência que a TV lança ao ar e institucionaliza como modo de vida é o seio onde foram gerados os desvios juvenis, desnorteando pedagogos e assombrando experimentados psicólogos. São os filhos da televisão. São os rebentos, talvez, os piores testemunhos de uma contracultura que ameaça ingressar no novo milênio, porta a dentro, se alguma medida não for tomada, aqui e fora do Brasil. Lá fora já as estão a tomar. Forçoso perguntar por que o ato imoral dá cadeia, se praticado no meio da rua, mas, vira coisa permitida e até admirada, se posta no ar pelos canais de televisão. Ora, a televisão tem bastante poder, de influir. Porém, esse poderio não absolve a permissividade. Convém repetir que a Constituição que assegura a livre propagação das idéias é a mesma que manda respeitar os valores éticos e sociais que estão no conceito da dignidade humana. |
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