Recife, Sábado, 28 de Março de 1998

Enxaqueca: dor que atinge 15% dos adultos

O escritor inglês William Shakespeare imortalizou as terríveis crises de enxaqueca de seu ciumento personagem Othello. As dores que o atormentavam faziam sua mulher, Desdêmona, amarrar com força faixas em sua cabeça para aliviar o sofrimento. Nos milênios anteriores ao nascimento de Cristo, por volta de 2.500 a.C, as vítimas da enxaqueca queimavam a cabeça com ferro quente e faziam sangrias pelo corpo. Naquele tempo, acreditava-se que a dor, insuportável, era um castigo dos deuses.

Também pelo Brasil, personagens notáveis mostraram publicamente a agonia da doença. O poeta pernambucano João Cabral de Mello Neto chegou a tomar seis aspirinas por dia para controlar a enxaqueca, que atinge de 10% a 15% da população adulta mundial. E não pára por aí: os estudiosos da enxaqueca ainda não encontraram remédio que cure o problema.

Caracterizada como uma dor de cabeça recorrente - que vai e volta -, e com duração de três horas a três dias, a doença apresenta dois tipos bem diferentes. O primeiro, chamado enxaqueca clássica, avisa quando vai chegar: normalmente, antes da dor, vêm luzes de cores brilhantes, os objetos ficam fora de foco, como se estivessem se mexendo, aparece uma sensação de adormecimento por todo o corpo e a pessoa percebe sons inexistentes. Nesse caso, segundo o neurologista Márcio Vinhal de Carvalho, há medicamentos que evitam a forte dor. "Mas é preciso ficar atento e tomar o remédio logo quando notar os avisos. Caso contrário, não tem jeito", explica.

O segundo tipo, o mais comum, aparece sem avisar. Começam os sintomas - dor de um lado só da cabeça, náuseas, vômitos, intolerância à luz e aos sons, falta de apetite, tremores, calafrios, falta de coordenação motora, dificuldade de articular palavras, etc. E uma das poucas formas de aliviar as dores é repousar. Esforço físico, estresse, preocupação, barulho, entre outros fatores, pioram ainda mais o problema.

Dificilmente será possível prevenir esse tipo de enxaqueca. A não ser, explica Vinhal, que a pessoa opte por fazer um tratamento continuado. Tomar diariamente remédios que evitem o aparecimento da dor.

Para a neurologista Iruena Moraes Kessler, uma boa forma de evitar a enxaqueca é reconhecer o que a desencadeia. Alguns fatores comuns são: o estresse (o principal); o jejum; o excesso ou redução de horas dormidas; o consumo excessivo de bebidas com cafeína; e alterações dos níveis hormonais.


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