Recife, Sábado, 28 de Março de 1998

Mistérios da Noite Escura

Peça dirigida por Antônio Cadengue fala de desejos, dúvidas e do amor presentes no ser humano

Ivana Moura
Da equipe do DIÁRIO

Duas camas, uma escrivaninha, muitos livros. De um lado, Jesus ensanguentado; do outro Santa Teresa de Ávila fragilizada em sua saúde. No meio, um tempo infindável para reflexões. E Tereza repartida em vontades e multiplicada por duas. Um anjo, uma aia, um homem ,também povoam esse universo de dúvidas e desejos. Além de um cantor, um violonista e um violoncelista. Juntos, eles desdobram-se na árdua tarefa de desvendar o mistério da existência. O espetáculo Noite Escura (em cartaz no Teatro Barreto Jr) focaliza a trajetória da mística espanhola quinhentista Santa Teresa de Ávila. Cria entrechoques, ao propor uma discussão sobre as matáforas do amor, essa grande força motriz de todos os atos humanos.

O mistério de Santa Teresa é um desafio, que muitos já encararam. O diretor Antonio Cadengue viajou nesse processo, no comando da companhia Teatro de Seraphim e dos músicos Gonzaga Leal, Fabiano Menezes e André Filho. Eles trazem à cena a luta entre a vocação e a imposição, entre o amor carnal e o amor divino. Apeça convida o público destes tempos tortuosos de final de milênio a pensar e a sentir. A procurar encontrar o caminho da luz passando pela noite escura. Conduzido pelas mãos de Santa Teresa é possível mergulhar nos recônditos mais preciosos e no lamaçal de cada um. É inevitável, para não ficar com as sensações epidérmicas.

Santa Teresa de Ávila era filha de um fidalgo espanhol. Aos 20 anos, contrariando a vontade paterna, escolheu a reclusão religiosa, para dedicar sua vida a Deus. No centro do conflito estava a escolha entre o amor carnal e o amor divino, que rendeu poemas tocantes, como dos livros Caminhos da Perfeição, Castelo Interior e Exclamação da Alma a Deus.

A encenação da Seraphim mostra o chamado do anjo, que quer levar Teresa para a clausura monástica. É uma aventura humana do coração, com silêncios e sussurros, músicas cantadas como um alento por Gonzaga Leal. Há gritos de dores e de gozo. Cadengue utiliza imagens recorrentes, de anjo, como condutor de caminhos, ou sedutor; climas de desesperos, de situação limite de decisão. O personagem- um homem (Marcus Vinicius) - diz os poemas de São João da Cruz).

A narrativa da peça joga com os tempos do presente e do passado, da memória e do que ainda está por vir. Entre silêncios alongados, que permitem ao espectador realizar uma viagem a outra dimensão menos real, da noite escura de cada um, a peça vai indicando caminhos: o da pulsação humana e vital.

O texto, criado a partir da autobiografia e poemas de Santa Teresa, versos de São João da Cruz e do CÂntico dos Cânticos, traz problemas de articulação. E amarra até o vôo ao encontro de Santa Teresa. Na montagem, pulsa a trajetória da mística e joga na cara de cada um as fragilidades, num discurso de limites de poder e tantas facetas do desejo.

Noite Escura faz um mergulho na união com Deus e o limite dessa união. De imagens que refletem em outros, da metamorfose. Dá testemunho dessa experiência humana do divino. O elenco deste testemunho é formado por Marcus Vinícius, Rodrigo Campos, Hilton Azevedo, Ana Maria Ramos, Paula Francinete e Lúcia Machado. Além dos músicos Gonzaga Leal, André Filho e Fabiano Menezes.

Há espetáculos que enveredam pela radicalidade. Por uma busca abismal do sentido da existência. Nunca é um caminho fácil. Pode causar espanto e horror o encontro com essas regiões. A Companhia Teatro de Seraphim insiste nesta trilha, de uma estética em que o humano seja questionado enquanto ser vital.

SERVIÇO

Noite Escura.
De Paulo Vieira, e direção de Antonio Cadengue.
Domingos, no Teatro Barreto Jr., às 21h. Amanhã, excepcionalmente, às 20h.

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