|
|
| Recife, Sábado, 28 de Março de 1998 |
|
|
Seca faz população sofrer Moradores de Santa Cruz, um dos municípios mais atingidos, mudam de hábitos enquanto a chuva não chega Josilene Barbosa SANTA CRUZ DO CAPIBARIBE - Todos os dias pela manhã, a dona de casa Adelma Coelho Barbosa, 25 anos, abre a torneira na esperança de que o abastecimento tenha sido normalizado. Essa rotina se repete desde o início de dezembro do ano passado, quando começou a faltar água no bairro de Cruz Alta, nesta cidade, localizada no agreste meridional. Casada e mãe de dois filhos, ela tem que comprar água todo dia para garantir, pelo menos, a comida e o banho dos filhos. "Nem sei se vai chegar o dia de ter de volta água nas torneiras", diz conformada. Adelma, e cerca de 60 mil pessoas, enfrentam a maior seca no município. ABSURDO Mesmo não tendo água nas torneiras, a população continua recebendo a conta da Companhia de Saneamento e Abastecimento de Água (Compesa). "Da água, a gente não sabe, mas a conta da Compesa chega todo mês. E, o que é pior, cobrando uma taxa maior do que a da Celpe (Companhia Energética de Pernambuco). Acho isso um absurdo, porque energia é tudo que a gente tem aqui. Há quatro meses que meu marido não paga a conta d€água e eu estou de acordo com ele", afirma Adelma Barbosa. Devido à falta de água na cidade, uma parte da população está sendo obrigada a ficar sem tomar banho. "Tem dia que a gente tem que escolher se toma banho ou se faz a comida. Já cheguei a passar até quatro dias sem lavar o corpo. Quando muito, passava a mão molhada para diminuir o calor e tirar parte da poeira", revela a costureira Maria de Lurdes dos Santos, 32 anos. Sem entender os motivos da estiagem, muito menos o que significa El Niño, Maria de Lurdes se diz resignada e descrente nos políticos. "Acho que só Deus pode tirar a gente desse sofrimento. Político só aparece aqui em ano de eleição e olhe lá. Eles vão bem se preocupar se tenho água, quando na casa deles tem até piscina", desabafa. No bairro de Santa Teresa, onde a costureira mora não só falta água como saneamento. "Quando puder construir um tanque para acumular água estarei realizando o maior sonho da minha vida. Vou poder juntar água e guardar para a semanatoda". Maria de Lurdes denuncia que o carro-pipa da prefeitura nunca levou água para o seu bairro, mas sabe que a distribuição acontece em outros locais. A saída encontrada por ela foi recorrer aos vendedores ambulantes de água. Eles carregam um pequeno tanque em cima de uma carroça de burro e vendem o líquido de porta em porta. O medo toma conta de algumas pessoas que temem pela falta total da água. "Uma das cisterna onde eu pegava água já secou. Receio que essa situação não melhore", admite Adriana Alves da Silva, 19 anos. Ela conta que também já ficou sem tomar banho e seu filho de um ano e três meses adoeceu devido à qualidade da água. "A situação está muito difícil, mas eu vou até o fim do mundo, se for preciso, para não deixar meu filho sem banho ou água para beber". |
|