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| (Atualizado no dia 27/3/1998) |
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A seca do ano 2010 Zoé de Brito* Oagricultor do Semi-árido nordestino enfrenta este ano mais uma seca, assistindo a silenciosa indiferença da maioria da sociedade e sentindo na pele e no bolso o horror de mais um período em que pela falta de investimentos, faltarão água e alimentos para seus animais e até para a sua família. Vale lembrar que em 1906, o homem ainda sonhava em voar. Naquele momento Santos Dumont fazia experiências com seu 14 Bis e, décadas depois, assistimos Neil Armstrong pisar na lua impulsionado pela Apolo 11. Vejam que progresso espetacular obteve-se em tão pouco tempo. Poderíamos citar tantos outros exemplos, em que as soluções tecnológicas receberam apoio para se tornarem ferramentas para o desenvolvimento da sociedade. Nesse mesmo período estamos fazendo uma revolução nas comunicações, nos transportes, na medicina, em armas de guerra e os investimentos em infra-estrutura em parte do Brasil têm sido consideráveis. Desde a seca de 1877, onde a fome e a sede dizimaram milhares de animais e seres humanos, diversos ciclos de estiagem ocorreram no Nordeste. Vale a pena ler a anláise climática feita pelo renomado cientista José Oribe Rocha de Aragão, publicado no Boletim de Informações Climáticas da Secretaria de Ciência e Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco, onde demonstra que consistentemente a cada 12 anos, temos aqui um ciclo de seca muito forte. Para lembrar as mais recentes, tivemos grandes estiagens em 1958, 1970, 1982/83, 1997/98. Segundo essa análise, teremos probabilidade de termos um próximo ciclo em 2010. Ao longo desses anos, a sociedade vem assistindo a um acelerado processo de desruralização, onde famílias completamente despreparadas para a vida urbana, abondonaram as suas terras e aventuraram-se ou nas periferias das pequenas cidades ou nas favelas dos centros urbanos mais desenvolvidos. A principal mudança que houve foi do pau de arara para o ônibus. Em 1958 levavam-se até dez dias para se chegar em São Paulo, e agora com apenas 50 horas de viagem os ônibus modernos e as estradas asfaltadas levam osnordestinos aos seus novos destinos. Para que a agricultura irrigada seja viável economicamente e tenha competitividade foram investidos milhões de dólares em obras de infra-estrutura, notadamente no Vale do São Francisco. Mas sabemos que 95% do Semi-árido não poder ser irrigado e que já há algum tempo dispomos de tecnologias para se fazer agropeácuria com competitividade. Basta que se invista em recursos hídricos, eletrificaçãoo rural, suporte forrageiro e educação, estaremos oferecendo ao agricultor as condições de viver com dignidade na terra onde nasceu. A população brasileira fez alguns grandes investimentos, e muitos não sabem que nós estamos pagando a conta. Para citar um exemplo, cada metro do metrô da cidade de São Paulo custou R$ 350.000,00. Se o governo federal investir 10 centímetros deste metrô em cada propriedade rural (R$35.000,00), estaramos gerando milhões de empregos, aposentando o carro-pipa e gerando riqueza e receitas públicas, além de milhões de empregos. Vale lembrar que o Brasil conta hoje com 32.000.000 de habitantes na zona rural. Desses, 16.000.000 vivem no Nordeste do Brasil. É completamente inaceitvel assistirmos a política de exclusão do agricultor nordestino, materializada na constatação que 85% dos recursos do Pronaf foram destinados aos agricultores do Sul e Sudeste. Essa política de exclusão tem sintonia até com políticos do nosso Estado. É conhecido por todos o esforço de Miguel Arraes em criar uma infra-estrutura em recursos hídricos e eletrificação rural em Pernambuco. Já li entrevista de importantes políticos locais chamando-o de terceiro-mundista "porque não estava investindo em coisas modernas". Só quem não conhece a luta e o sofrimento do povo para se abastecer de água, usando seu próprio corpo como meio de transporte, algumas vezes a quilômetros de distância, pode explicar tamanha insensibilidade. De fato, para os milhões de nordestinos que ainda vivem esta realidade não existe no mundo atual nada mais moderno do que abrir uma torneira dentro de casa e ver sair água limpa, ou apertar um botão e acender a luz. Temos esquecido de fazer a conta social do que representa o descaso de Brasília com o Sertão nordestino. Os milhões de favelados nas grandes cidades têm levado o governo a priorizar neste momento a construção de penitenciárias de segurança máximanas capitais. Só que um preso custa R$ 400,00 por mês à sociedade. Manter um detento durante 20 anos significa gastar R$ 96.000,00. E as penitenciárias estão cada dia mais lotadas. Precisamos virar esta página. O Brasil tem um ministério que dispõe de recursos financeiros para a área de recursos hídricos, tem a Sudene, com diversos estudos dos nossos recursos hídricos, e o que vimos nos últimos anos foi o total esquecimento que as secam voltariam. Infelizmente só quando vivenciamos mais uma seca é que surgem verbas para, emergencialmente, construírmos obras para captação de água. Desde junho de 97, os meteorologistas do mundo inteiro já tinham fortes evidências do fenômeno El Niño e até hoje não temos notícias deprovidências que o governo federal esteja adotando para os nossos sertanejos enfrentarem mais esta seca. Espero que a sociedade conscientize-se de que não é possível estarmos no terceiro milênio, no país da 8ª economia do mundo, submetendo milhões de pessoas a esta humilhação de chegar numa estiagem e não encontrar o que comer o que beber. Temos previsão de que em 2010 teremos uma seca muito forte. Espero que até lá, estejamos convencidos que o maior investimento que se faz é naquilo que gere empregos e democratize as riquezas, e que no futuro o nosso sertão seja uma terra em que as gerações possam se orgulhar de ali terem nascido e de terem acumulado riquezas daquele chão. Pesquisador e diretor do IPA |
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