(Atualizado no dia 27/3/1998)
Eudes Santana

A Paixão de Plínio

No começo era só um sonho. A terra seca, o mundo calado, o homem sem esperança, até que a pedra ganhou vida e fez brotar do chão duro de granito do Agreste Semi-árido. Foi preciso reunir a poesia e os versos dos violeiros, a valentia dos cangaceiros e das volantes e a fé dos beatos e santos nordestinos para que surgisse a Nova Jerusalém.

Cláudio Castanha

Como Michelangelo, ele deu vida às pedras. O que era um conjunto de pedras formando montanhas de granito transformou-se numa cidade de 70 mil metros quadrados cercada por muralhas com sete grandes portas, setenta colunas de sete metros de altura guardiãs de palácios e templos. Ele fez brotar do chão, da terra árida e dura, uma réplica da Jerusalém de dois mil anos.

Numa região semi-deserta onde não havia gente, ele arrastou e continua reunindo multidões. Onde não existia trabalho, há mais de quarenta anos ele junta trabalhadores e emprega centenas de sertanejos que o ajudam a construir um sonho. Onde só havia o barulho dos ventos açoitando as pedras e o zunido dos marimbondos e das abelhas sobrevoando as flores e os frutos dos cactos, ele trouxe o murmúrio dos fiéis encantados com as palavras e a história de Jesus Cristo.

Ele transformou camponeses, homens rudes e analfabetos em atores da Paixão. Fez de agricultores e pastores de bodes, escultores de pedras duras, criadores de esculturas, belos capitéis, colunas e escadarias. Um sonho de lágrimas, sangue, calos nas mãos e sacrifícios. Ele foi buscar na poesia dos repentistas, violeiros e cantadores, na raça de todos os cangaceiros e volantes e na fé dos santos e beatos sertanejos, a força para erguer a cidade de pedra.

Plínio é um desses sonhadores que surgem de vez em quando no mundo com a missão de marcar, com grandes idéias e empreendimentos, a presença do homem na terra. Construir o maior teatro ao ar livre do mundo para encenar o espetáculo universal da Paixão de Cristo custou-lhe sacrifícios, sofrimentos, tristezas, mas também proporcionou-lhe alegria, paixão, obstinação e muito amor à arte.

Pedras - grandes pedras- nunca faltaram no caminho deste pernambucano nascido no Rio Grande do Sul. Plínio é daqueles homens que vêem arte em tudo. Para ele, dentro de cada pedra existe uma figura que deve ser revelada. Durante sua vida ele não fez outra coisa senão dar formas e vida às pedras que encontrou em Fazenda Nova.

Quando pisou pela primeira vez no solo daVila de Fazenda Nova, para assistir a um espetáculo teatral promovido pelo comerciante Epaminondas Mendonça e sua família, encantou-se com o lugar e nunca mais saiu de lá. Na época era um sub-oficial da Aeronáutica por profissão e jornalista por paixão. O amor por Diva, uma das filhas de epaminondas, o enraizou ainda mais naquela região.

O espetáculo de Fazenda Nova foi encenado pela primeira vez em 1951 pelo casal Epaminondas e Sebastiana Medonça, seus filhos Luiz, Paulo, Geni, Margarida, Berenice, Nair, Naná, José e Diva, e mais alguns moradores do lugar. Em 1953, o drama já contava com a participação de artistas do Recife, como Clênio Vanderley e Otávio Catanho. Em 1954, o espetáculo ganhava novo visual com o figurinista Victor Moreira.

A cada Semana Santa o espetáculo ganhava fama, público e novos profissionais. Em 1956, Plínio Pacheco estava apaixonado por Diva Mendonça e levava para Fazenda Nova, num vagão alugado a Rede Ferroviária Federal, 20 jornalistas para conhecer de perto o espetáculo da Paixão. José Pimentel e Carlos Reis já andavam por lá trabalhando e liderando grupos de atores e figurantes.


Quarenta anos de sonhos

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