Recife, Sábado, 28 de Março de 1998

Greves de servidores

OPINIÃO
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Após uma semana perdida de aula para mais de um milhão de estudantes da rede pública do Estado, com a paralisação de atividades dos professores, os pernambucanos se deparam com mais uma ameaça de greve. Desta vez são os policiais que, de novo, recorrem à possibilidade de cruzar os braços para que o governo reajuste seus salários e melhore sua condição de trabalho.

O governo de Pernambuco se depara com uma série de movimentos grevistas ou de simples mobilização salarial. Apenas nesta semana, funcionários do Bandepe, IPA, CPRH e Emater seguiram o exemplo dos professores da rede pública e suspenderam o serviço como forma de pressão ao poder executivo estadual.

Sem entrar no mérito das - muitas vezes - justas reivindicações do funcionalismo público e dos conhecidos limites do poder público brasileiro em atendê-las, nos deparamos - de novo - com a velha e nunca respondida questão: por que é que na quebra-de-braço entre governo e servidor, a população é quem tem que pagar o preço?

Não bastasse ser violenta e cotidianamente absorvida pelos infinitos impostos e tarifas a que é submetida e como se ainda fossem pouco seu drama e sacrifício quando da hora da cobrança pelos serviços públicos a que tem direito, a população é - pelo que parece - a única que paga mais esta conta na hora do dissídio, da greve ou da intransigência seja de que parte for.

O tão sofrido e famoso povo brasileiro - especialmente aquele que necessita dos serviços públicos essenciais sem possibilidades de outras alternativas a recorrer - está sempre arcando com o ônus das disputas trabalhistas entre Estado e funcionários públicos.

Com tantas décadas de acúmulos e práticas, desde as clássicas barricadas de Paris, o movimento sindical brasileiro ainda não conseguiu formular experiências eficientes de pressão ao poder público sem que - necessariamente - sacrifique a população a qual - teoricamente - busca o apoio. Pelo contrário, as habituais passeatas no centro da cidade - que paralisam o movimento dos ônibus, repleto de populares apressados para tomar seu caminho para casa ou trabalho - não são exatamente as medidas mais inteligentes para conquistar a simpatia da maioria da sociedade, normalmente solidária, por sofrimento próprio, às reivindicações de melhorias salariais e profissionais.

Pernambuco, recentemente, percebeu os resultados concretos de uma greve de policiais. E não é preciso ir muito longe para imaginar igual efeito numa paralisação da saúde. O fato, enfim, é que o serviço público paralisado sacrifica muito mais a população a que - supostamente - beneficia, que aos políticos que - na prática - sustentam. Por isso, os sindicalistas passam a ter, mano a mano com o governo, responsabilidades sobre o ônus da sociedade.

Não ao cartel

O turismo vai aumentar. O emprego, que dele depende, será também incrementado, na medida em que bilhetes aéreos para vôos no país e passagens de ônibus interestaduais, sujeitos agora à concorrência, estão com declínio assegurado. Nos aviões comerciais, a queda dos preços é significativa, coisa de cinqüenta ou mais por cento na maioria das rotas. Nos ônibus, não sabemos ainda quanto será o benefício dos usuários - sabe-se apenas que será grande -, porque as linhas vão ser leiloadas para quem puder explorá-las em regime de competição.

Eis uma face do Brasil que estamos a alterar para melhor. A um simples gesto de obediência à liberdade econômica, benefícios logo frutificam para satisfação da maioria. O povão será o grande beneficiário do processo de descartelização que ora se inicia. Mais viagens na estrada e pelos céus se realizarão, à proporção que as passagens ficam mais próximas do poder aquisitivo da sociedade. Mais investimentos vão ser feitos, naturalmente, e, em conseqüência, novos empregos diretosse criarão, nas companhias aéreas, nas que se dedicam ao transporte rodoviário. O conforto é outro subproduto da descartelização. A concorrência - não, O Governo - fará com que a figura do passageiro seja doravante mais bem tratada. Poderão diminuir dos ônibus e aviões o relaxamento e a negligência, comuns na prestação brasileira de serviços ao público.

É impressionante que o país tenha capacidade para resolver problemas momentosos, mas, em geral esbarre ante questões absolutamente mesquinhas. No transporte interestadual, havia permissões já antigas de vinte anos, sem nenhuma renovação. No aéreo, o tráfego entre as duas mais populosas capitais - Rio e São Paulo - ficou sendo privilégio do oligopólio integrado pelas três maiores empresas de aviação comercial, as quais, assim, ditavam os preços que lhes convinha. É perguntar: por que só agora, e não, antes, ocorreu a alguém que constituia esbulho dos cidadãos a perpetuação de inúmeras permissões rodoviárias e a prática reiterada do oligopólio em rotas aéreasopulentas como a da "ponte" Rio - São Paulo?

A queda dos preços e a melhoria dos serviços de transporte em terra e no ar mostra que o mercado competitivo é capaz de ver melhor do que enxergam burocratas dos departamentos governamentais. Aliás, houve quem afirmasse, com a aprovação de muita gente boa, que o Brasil estava mesmo era precisando de um "choque de liberdade" sobretudo econômica. O episódio dos aviões e dos ônibus comprova a correção da afirmativa.

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