Recife, Sexta-Feira, 27 de Março de 1998
Mascaro

Minha melhor amiga é traidora

Polêmica de Por Amor expõe casos de amizades entre mulheres estremecidas por um homem

Fernanda d'Oliveira
Da equipe do DIÁRIO

Confidentes, unha e carne, corda e caçamba. Helena (Regina Duarte) e Flávia (Maria Zilda Bethlem) eram daquele tipo de amiga que não se desgrudavam nunca. Amigas até a morte. Só que a separação veio antes, muito antes do esperado, na forma de Atílio (Antonio Fagundes), marido de Helena. Flávia repetiu todos os passos da mulher sedutora: grudou no bonitão e até apanhou de Eduarda, que vai pelos mesmos caminhos lacrimosos da mãe, Helena, enganada pela melhor amiga. O roteirista Manoel Carlos acertou na mosca e o Brasil se comove diante do infortúnio da mulher traída, em pleno horário nobre da Rede Globo, na novela Por Amor.

É apenas mais uma polêmica. A novela vem chamando a atenção por ser a primeira em que a mulher está sempre à frente do homem nas tramas. Não é à tôa que a audiência cresce a cada semana. As polêmicas se sucedem: troca de bebês, marido bissexual, tráfico de drogas, amor entre garota rica e homem pobre, traição de altos executivos. Mas, ao mesmo tempo, não é apenas mais uma polêmica. Esta atinge em cheio o coração de um drama feminino repetido à exaustão pelo mundo afora. Traição de melhor amiga não é tão incomum assim.

Como novela não é mini série - e Por Amor ainda promete um rio de lágrimas pela frente -, o assunto ainda terá muito pano pras mangas. Se Helena ainda continua perdida feito cego em dia de tiroteio, a mulher de hoje em dia parece que tem juntado os cacos, sacudido a poeira e dado a volta por cima mais cedo do que se imagina. É claro que a traição dói, mas a vingança tem um gosto especial. Outro sabor dos deuses é a pura indiferença, o desprezo, ou a simples certeza de que aquela amizade não valia tanto.

CASOS

A bailarina Bartira Santos, por exemplo, lembra que passou momentos terríveis, como ela própria adjetiva. "Éramos amigas há oito anos. Eu namorava um rapaz há dois anos e tivemos uma briga. Com o desentendimento, os dois viajaram para a praia de Pipa (Rio Grande do Norte). Quando soube, fiz um escândalo e, para superar, mergulhei muito no trabalho e me dei espaço paraarrumar um outro namorado". enquanto juntava os pedaços, Bartira armava uma vingança: "Voltei com ele só para me vingar. Ficamos juntos uns oito meses, mas não deu certo. Não deu certo por mim, porque percebi que o amor havia acabado. O que ficou foi um profundo ódio por ela, que será para a vida inteira".

A cantora Ângela Barreto não dá brecha para que esse tipo de coisa aconteça. Para ela, o homem com quem vai se relacionar tem que ser deconfiança, justamente para evitar esse tipo de traição. "Quando saio à noite e uma amiga dá em cima do homem por quem eu me interessei, deixo ele todo pra ela. Já se houver um interesse dele em mim, invisto na relação. Homem que se comporta como Don Juan, posso ter até como amigo, jamais como companheiro. Não entro em concorrência".

Traição em dose dupla sofreu a cineasta Solange Rodrigues. "Fui traída no amor e no trabalho. No primeiro caso, estava com uma hóspede na minha casa e um dia, quando cheguei, encontrei meu marido com ela e a porta da sala trancada. Minha hóspede nunca mais voltou e ele deixou de ser meu marido. Já no trabalho, uma assistente minha vivia me derrubando e eu não sabia. Amigos vieram me contar e conversei. A verdade prevaleceu e ela perdeu o emprego". Solange acredita que deu a volta por cima porque falou a verdade. "Eu ainda sou amiga do ex-marido, mas da hóspede e da assistente quero distância. A dor de uma traição é grande, é algo agressivo. Não precisa da obviedade. Mas se dá a volta por cima".

Quem mostra ter sempre tirado de letra a traição é a jornalista Fátima Bahia, que se define como "uma mulher traída a vida inteira". Para ela, traição de uma amiga é coisa muito comum. "A traição tem que ser vinda de uma amiga, porque inimiga não anda com a gente". Para Fátima Bahia, escapadelas não têm a ver com traição. "Encaro como um tesão eventual. Hoje, acho que se pode ter um grande amor e um tesão passageiro. E isto vale para a mulher também. Na teoria, já estou mil por cento; na prática, zero, mas pronta para dar os primeiros passos. Nesta dimensão, só traindo meu sentimento e a minha confiança. Trocando em miúdos, pular em outra cama, sim. Mas formar uma família, jamais."


Depoimentos

Fale conosco diario@dpnet.com.br

MAPA BRASIL ECONOMIA ESPORTES HISTÓRIA HUMOR
INFORMÁTICA INTERIOR MUNDO VEÍCULOS VIAGEM VIDA URBANA VIVER