Recife, Quinta-Feira, 26 de Março de 1998

Tanajura e monsieur Jourdane

José Cláudio

Você acredita que não soube o que era? Sacos e mais sacos cheios daquele estranho cereal brilhoso, um litro de pau em cima, daqueles quadrados, que tinha litro, meio litro, meia cuia, uma cuia valendo doze litros, com que se mediam grãos e farinha. Perguntei a um dos donos que frutinha era aquela. Achei que era brincadeira quando respondeu: "tanajura". Acrescentou: "Pode provar, já está torrada". Joguei algumas na boca, que para comer sempre tive coragem, e mastiguei olhando para ele, que me confirmava, fixando-me por sua vez, a excelência da iguaria. Mandei botar meio litro, um litro, não lembro o preço: o ano passado, nesta época, alguém me disse, deu R$ 20,00 o quilo. Agora vendem por quilo, parece.

Eu trabalhava então na Sudene, na Rua da Concórdia, como ajudante de desenhista, e levei obra de uns três punhados, para mostrar aos colegas. O chefe da missão francesa, monsieur Jourdane, homem de fino trato, quis provar. Ficou encantado. Ia dar uma recepção em seu apartamento e queria a todo custo adquiriruma boa quantidade de tanajuras para oferecer como salgadinho, somente desistindo da idéia quando lhe mostrei que ele teria de adiar a festa para a semana seguinte, quando eu voltasse da feira de Caruaru, e mesmo assim correndo o risco de passar um fiasco, que essa "lavoura" dá de veneta, sem nenhuma garantia.

Mais recentemente, pegando um táxi na feira de Água Fria, não pude conter a curiosidade e perguntei, já na Avenida Kennedy, em Peixinhos, à taxista, uma das poucas vezes que me aconteceu viajar com taxista mulher aqui no Recife (viajei com uma loura alta elegantíssima em Nova Iorque que parecia saída de um filme da década de quarenta), o que ela jogava na boca, tirando de um pacote aberto em cima do tabeliê, grosseiramente feito de papel de folha de revista, mulher assararazada de meia idade com gestos um tanto bruscos mas risonha. "Pode olhar", ela disse, " e pode comer também se gostar". Estiquei o pescoço. Era tanajura com farinha. Me repugnou um pouco aquele papel que parecia apanhado no lixo, manchado de uma banha amarela mas serviu para avivar o gosto de tanajura. Ficam umas casquinhas às vezes cravadas nas gengivas parecendo casca de barata mas tirante isto tem gosto de torresmo.

Me lembrei de quando em menino enfiava a tanajura num palito para ela ficar zumbindo. A gente rodava o palito e ela voava presa na ponta do palito.Também faziam isso com caga-fogo, vagalume, e de noite os coitados ficavam acendendo no escuro na ponta do palito. Tais brincadeiras eram desaprovadas pelos mais velhos como judiação com os bichos.

O médico Caio de Souza Leão Filho, quando plantonista no Hospital Getúlio Vargas, aqui no Recife: sou obrigado a deixar para mais outra crônica, " Tanajura três" ou " Cai cai tanajura e Caio ", se o jornal antes disso não der um basta em tanta tanajura.


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