Recife, Quinta-Feira, 26 de Março de 1998
Divulgação

Deborah Colker desafia a gravidade

A maior coreógrafa do Brasil chega ao Recife para apresentar o mais novo espetáculo

Fernanda d'Oliveira
Da equipe do DIÁRIO

A coreógrafa Deborah Colker deve ter sido apaixonada por Física na adolescência. Ou, quem sabe, sonhava em ser astronauta. Só pode ser essa a explicação para a verdadeira obsessão que a melhor dançarina do Brasil nutre por desafiar a gravidade. Afinal, a dança contemporânea de Deborah vai além do piso do palco: escala paredes, chega no teto, toma todos os espaços. Seus bailarinos são verdadeiros ginastas desde Vulcão, de 1994, passando por Velox, em 1995, e Mix, um ano depois (mostrando a fusão dos dois trabalhos). Agora, ela tenta, mais uma vez, mostrar sua mistura de dança, expressão corporal e ginástica olímpica no espetáculo Rota, que se apresenta amanhã e sábado, no teatro Guararapes, às 21h. Os ingressos vendidos na bilheteria do teatro custam R$ 20,00.

Rota reúne as infinitas possibilidades de exploração de caminhos pela dança, assunto em que a Companhia de Dança Deborah Colker é mestra. Tanto assim que a turnê, que estreou nacionalmente em julho passado, no teatro Guaíra, em Curitiba, tem sido um sucesso de público, e o grupo está negociando várias apresentações pela América do Sul, Estados Unidos, Europa e Oceania.

Com coreografia de Gringo Cardia, figurinos de Yamê Reis, iluminação de Jorginho de Carvalho e trilha sonora de Berna Ceppas, Alexandre Kassin e Sérgio Mecker, Rota esbanja no balé contemporâneo e também incursiona pelo balé clássico.

Ensaiando desde abril do ano passado, nos intervalos das temporadas de Velox, e, a partir de janeiro último, em ritmo de dedicação integral, os quatorze bailarinos mostram um espetáculo de 53 minutos, dividido em dois atos. O Allegro, Ostinato, Vigoroso, Presto tem vinte minutos e faz uma homenagem às vertentes eruditas da música e da dança. O segundo ato, Gravidade, Roda, tem 33 minutos e começa com um balé em câmera lenta, chegando depois a uma série de desafios, com os bailarinos utilizando roda gigante e escadas.

TRABALHO EM EXCESSO

A Companhia de Dança Deborah Colker vai bem, obrigada. Por telefone, a coreógrafa explica melhor. "Estamos dançando pra burro. Estreamos Rota em julho de 97, fizemos todo o Sul do País. Ficamos cinco semanas no Rio de Janeiro, mais cinco em São Paulo. Voltamos para o Rio e dançamos na Colômbia em dezembro. Em janeiro, mais cinco cidades do Interior de São Paulo, duas semanas em Belo Horizonte. Novamente Rio e Salvador. Vamos agora ao Recife e partimos para Fortaleza. No mês de maio, vamos mostrar nossa dança na Alemanha e em Portugal. É trabalho pra caramba", define.

Para encarar uma maratona tão desgastante, no entanto, Deborah tem duas explicações convincentes. "Para se ter uma companhia, a primeira necessidade é dançar muito para sustentar todos os integrantes; depois, precisamos formar platéias e, com casa cheia, ganhar patrocinadores. É um ciclo", completa, com sinceridade. As apresentações, segundo ela, têm sido boas, sempre com casas lotadas. "A companhia está botando as pernas pro mundo. Em Belo Horizonte, antes de cada espetáculos, ensaiávamos sete horas por dia e isto é o nosso tempo normal."

Estes ensaios poderiam ter até mais horas, conforme diz, ao avaliar o tempo no período de criação de cada montagem: "Fazemos uma hora e meia de balé contemporâneo, que mexe com todo o corpo (força, dinâmica, volume e linguagem). Mais uma hora de aula para preparar os músculos. Meia hora de intervalo. Além do processo de criação, experimentamos ensaio conjunto. Vendo assim, as sete horas terminam sendo poucas", acredita.

Não há descanso geral, mesmo quando não há espetáculo. "Temos os ensaios. Escalamos paredes. Agora somos quatorze bailarinos. A companhia e o volume de trabalho cresceram". Deborah Colker já está trabalhando em uma nova coreografia, mas prefere deixar o assunto por aqui. "Ainda é cedo. Estrearemos esse só no primeiro semestre de 99", diz ela.

Sua expectativa em relação ao público pernambucano é das melhores. "Sei que o público está curioso. Embora conheça nosso trabalho (a companhia esteve aqui com Velox), sabe que virá sempre algo novo. As pessoas verão em Rota um amadurecimento não só de criação, como dosbailarinos e do nosso pensamento do movimento de dança, já que trabalhamos com conceitos importantes da dança contemporânea. É um trabalho extremamente depurado, sofisticado, onde buscamos caminhar por estradas desconhecidas, explorar o espaço. Mas é um trabalho experimental, no sentido de buscar o novo e o desconhecido".

SERVIÇO

Rota. Quarta montagem da Companhia de Dança Deborah Colker. Teatro Guararapes (Centro de Convenções, fone 241.2111), sexta e sábado, às 21. Ingressos no local a R$ 20,00.


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