Recife, Quinta-Feira, 26 de Março de 1998

Que é isso?

OPINIÃO
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É uma pena que a cerimônia de entrega do Oscar seja uma festa de cineastas para cineastas, com o pretexto de entregar prêmios a artistas e pessoal que trabalha na produção dos filmes. Não há, é verdade, outra maneira de atribuir a estatueta a quem trabalha no setor. Mas as histórias que são levadas para as telas se perdem diante da magnífica demonstração de como organizar um evento para o mundo inteiro.

O filme O que é isso companheiro?, de Bruno Barreto, perdeu na finalíssima para o concorrente holandês. No entanto, estar entre os cinco melhores filmes produzidos fora dos Estados Unidos já é um prêmio importante. Não é desculpa de perdedor. É difícil que americano dê destaque a uma história que, apesar do seu recentíssimo glamour, trata precisamente de um fato relativo ao antiamericanismo na América Latina.

Esse é o enigma que os cineastas não perceberam, porque eles observaram apenas a técnica contida na obra. Esqueceram a obra em si. O que é isso companheiro? tem origem no livro homônimo de Fernando Gabeira, que não viajou aos Estados Unidos porque teve seu visto negado pelo Departamento de Estado. Lá, ele é, até hoje, considerado um criminoso. Se aparecer em Los Angeles será preso.

O seqüestro do embaixador Charles Elbrick, realizado no Rio de Janeiro, em 1969, teve por objetivo libertar presos políticos, levantar algum dinheiro e chamar a atenção do mundo para a ditadura brasileira que conseguiu chegar ao poder com notável auxílio do Departamento de Estado e da CIA.

O filme, que quase ganhou o Oscar, fez muito mais na divulgação do fato que o seqüestro em si. O diretor Bruno Barreto aliviou certas passagens, envolveu com charme outras, mas o episódio central da história foi mantido intacto. Um representante diplomático do governo dos Estados Unidos foi seqüestrado por um bando de jovens rebeldes, candidatos a guerrilheiros urbanos. Filmes políticos não costumam entusiasmar os norte-americanos.

Pode-se dizer que a disputa pelo Oscar é autêntica, no sentido de verdadeira. Ela começou cem por cento autêntica mas foi perdendo essa qualidade na medida em que o filme exibido pelos brasileiros se reportava a um fato verídico. E promovido contra a política oficial de Washington dos anos sessenta. O julgamento mudou de qualidade diante do incômodo de premiar um filme que expõe as entranhas do grande irmão do norte. Uma pena que os cineastas não tenham percebido isto. Ou de outra forma: cinema é algo muito sério para ser entregue apenas aos cineastas.

Água de menos

A Tennessee Valley Authority - TVA, badalada autarquia norte-americana, e o Mezzogiorno italiano são, provavelmente, duas tentativas bem-sucedidas, no mundo, para revigoramento econômico de grandes áreas. Em 1943, livro escrito sobre a epopéia do TVA ianque, David Lillienthal tomou ares de profeta ao dizer que o escrito "era uma obra sobre o amanhã, era a história de uma grande transformação".

Nordestinos e pernambucanos em particular não podem dizer a mesma palavra sobre os esforços, já de décadas, que empreendem, para equacionar de forma definitiva o problema das secas. Continuamos sendo surpreendidos pela seca no sertão e no agreste, alcançando até as faixas úmidas do nosso território.

Na verdade, a ausência de uma política federal regionalizada, forte e consistente, que trate do assunto tem causado sofrimento de milhões de pessoas, um terço da população do país.

Agora mesmo, na região metropolitana do Recife, o provimento d€água à população é feito pela metade, dia sim, dia não. Mananciais inteiros estão exaustos, enquanto declina, dramaticamente, o nível de acumulação de nossas barragens. Trinta anos de Sudene não erradicaram da paisagem o caminhão-pipa e a lata d€água na cabeça, nem o carro de boi que vai buscar água em cacimbas poluídas a dezenas de quilômetros de distância dos aglomerados humanos. A prolixidade dos nossos planos e projetos e a loquacidade dos discursos, infelizmente, não estão a nos contar a história de uma grande transformação.

Diante do quadro de racionamento d€água que se repete quase todos os anos, é lícito perguntar se os reservatórios da área metropolitana foram de fato projetados com alguma dose de bom-senso. É muito utilizar como desculpa de um planejamento falho o fenômeno El Niño. Tudo agora é debitado ao El Niño, até mesmo azares que nada têm a ver com os caprichos da natureza. O fato é que a invernada de 1997 ultrapassou as melhores expectativas no Recife e arredores, havendo quem previsse a impossibilidade de crise no abastecimento d€água durante o período seguinte,1998. Deu tudo ao contrário. A água que veio foi bastante. Mas, a água que restou não está dando para o gasto. Então, pensa-se num erro do projeto que estabeleceu a capacidade de acumulação d€água na área, talvez a sub-avaliação da sua capacidade de armazenamento.

Opinião
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João Alberto
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