Recife, Quinta-Feira, 26 de Março de 1998

FH perde a calma

Tereza Cruvinel
PANORAMA POLÍTICO

Fernando Henrique, o sereno, perdeu a estribeira ontem. Sobrou para os repórteres, mas ele sabe que descabido é esperar que não façam perguntas. Sua bronca é com os aliados (deu nome a muitos deles, em seguidos desabafos) que se engalfinham por ministérios, numa reforma que FH começou a fazer com sua marca. Mas o cachimbo entorta a boca. Não é agora que os partidos aliados vão dar mostrar de desprendimento "Eu acho que essas perguntas não têm cabimento. Ministério é uma decisão pessoal do presidente da República. É assim que funciona o sistema. O presidente ouve partidos, pessoas e toma a decisão". Devia ser assim mesmo, mas há muito tempo os partidos vêm sendo mais do que ouvidos pelo presidente. Primeiro, por causa dos 3/5 para as reformas, depois, para aprovar a reeleição, mais adiante, para votar a lei eleitoral, mais recentemente, para ganhar a convenção do PMDB... Todos os interlocutores encontraram FH tenso, inquieto, irritado. Queixou-se de todo mundo, até mesmo do amigo José Serra. Convidou-o para oministério da Saúde sabendo que enfrentaria reações. Sua volta ao Governo, entre muitos significados, expressa também maior autonomia política em relação aos partidos. E o que faz o Serra? pergunta FH? Vai para o exterior estudar questões de Saúde, quando devia estar aqui, apagando o incêndio. A demora em aceitar o convite levou ã fritura do ex-ministro Albuquerque. A pecha de desleal Fernando Henrique não aceita, como disse numa das conversas: Já foi acusado de ser infiel a Covas porque recebeu Maluf; de trair Itamar porque o PMDB preferiu apoiá-lo. Como fritador de ministros, não quer passar. O PFL, sempre tão prático, agora pisou em falso e o está atazanando. De Inocêncio Oliveira, não quer nem ouvir falar. Sua reação ã indicação de Serra foi algo desproporcional. Pela manhã, FH esteve com o senador ACM, que também está irritado com o desacerto de seu próprio partido. Indicou nomes fracos, quando Serra já estava na praça e agora terá que trocar as indicações. Coisa de tucanos. ACM voltou ao Senado dizendoque o presidente não pode ser refém dos partidos. Queixou-se menos o presidente do PMDB. Eliseu Padilha aceitou ficar, um problema a menos. Mas Iris Resende insiste em fazer como sucessor seu secretário-executivo José de Jesus. FH queria alguém capaz de dialogar com o Judiciário, mas não se acha tal quadro na bancada. Ã noite, parecia propenso a convidar Jáder Barbalho. Não bastasem as pressões, queixa-se FH, tudo vaza, tudo o que diz vai parar na imprensa, desencadeando pressões. Terminou o dia disposto a desistir da idéia de criar o ministério da Habitação. Foi pressão contrária o dia todo. FH falou grosso, mas não há sinal de que os partidos vão enfiar as pretensões no saco. Este clima desagradável (ele detesta trocar auxiliares) vai prolongar-se até o final de semana. Com a chegada de Jorge Bornhausen é que o PFL acerta os ponteiros.

Sessão Louva-Serra

n Começa agora, depois da pancadaria, a sessão de Louva-Serra. O ministro pefelista Reinhold Stephanes, lembrando já ter presidido o INSS, diz que ao contrário de outros pefelistas, acha Serra um grande nome. €Todos devemos é torcer por ele, torcer pela Saúde". O líder tucano Aécio Neves pede aos partidos que deixem de histeria. "A hora é de torcer por Serra e pela vitória do presidente na eleição". Aécio deve promover uma reunião do novo ministro com a bancada tucana (embora Serra esteja danado com os que assinaram um abaixo assinado a favor da permanência de Carlos Albuquerque, tendo à frente Nelson Marchezan). CAIU de cama, com dengue, o prefeito de Recife, Roberto Magalhães. A escolha do ministro da Saúde deve aumentar o seu desgosto. E-mail para esta coluna: cruvinelsb.oglobo.com.br

Em coma

Agonizava, no início da noite, a intenção do presidente de criar o ministério da Habitação e Saneamento. O primeiro a falar contra foi o senador ACM. Pareceria jogada eleitoral. Depois foi o presidente do PSDB, Teotônio Vilela. Em ano eleitoral, seria matar um boa idéia. Ao longo do dia a idéia foi sendo bombardeada pelo PFL, PSDB e PMDB. Sérgio Cutolo deve acordar como um ex-futuro ministro da pasta. Mas conservando o bom emprego de presidente da Caixa Econômica Federal. Os tucanos tinham razões concretas para não querer a nova pasta. Estes setores, hoje, estão afetos ao ministério do Planejamento, para onde vai o ministro Paulo Paiva. Ele é do PTB, mas não deve tocar no segundo escalão que cuida do assunto na Seplan, todo tucano. E dirigido por Maria Emilia Rocha, desde quando José Serra era ministro do Planejamento. É por isso que o PTB levantou as lanças quando soube que o PPB de Maluf queria lhe tomar a pasta da Agricultura. Paiva é do partido, mas serve a quem o chefe mandar. - Ministério, nós só temoso da Agricultura. O outro é da costa do presidente em Minas - dizia o líder petebista Paulo Heslander.

Guerra a Itamar

Chamado de enguia e de monstro (Dr. Jekyll) por Itamar Franco, Fernando Henrique engoliu em seco. Mas não é uma ameba, e está abrindo fogo sem expor o corpo. Primeiro, imobilizou Helio Garcia em Minas, entregando a pasta do Planejamento a seu afilhado Paulo Paiva. Depois disso, Helio não fará jogo local com Itamar. No domingo, em entrevista a Mônica Gugliano, de O GLOBO, Itamar revelou que está indo a Cuba em abril. Na terça-feira, por coincidência, o chanceler Luiz Felipe Lampréia anunciou que decidiu, na véspera, aceitar um antigo convite para visitar a Ilha de Fidel. Em abril. No mínimo, com isso FH tira todo o charme da visita de Itamar.

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