Recife, Quinta-Feira, 26 de Março de 1998

Menos desvalorização

PANORAMA ECONÔMICO
Míriam Leitão
Dirceu Viana

O Banco Central pode fazer o contrário do que se imagina e reduzir o ritmo das desvalorizações cambiais para abrir espaço para novas quedas dos juros. Se reduzir as desvalorizações, o país poderá manter alto o ganho dos investidores estrangeiros ao mesmo tempo em que diminui o custo da dívida interna e injeta ânimo na economia. Outra medida que pode ser tomada é a de diminuir o custo fiscal do imposto nos investimentos estrangeiros.

Os candidatos de oposição estão pregando nesta pré-campanha o oposto disto. Tanto Ciro Gomes quanto Guido Mântega, economista do PT, estão propondo a aceleração das desvalorizações. "Mais desvalorização é inflação e perda de cupom cambial na veia. Quem fizer isto tem que estar preparado para alta de preços e perda de reservas", diz um economista do Governo.

Para o ano que vem, está se formando um consenso entre os bancos estrangeiros de que o Brasil vai desvalorizar o real, assim que começar o novo Governo. Aqui, as instituições estão divididas, a maioria acha que o Governo não vai desvalorizar. O câmbio, mais do que nunca, está no centro do debate. De curto e médio prazos.

Esta semana José Márcio Camargo e Edward Amadeo escreveram um interessante artigo no boletim da empresa de consultoria Tendências, em que afirmam que "ao longo dos próximos meses, será preciso examinar cuidadosamente os prós e contras de manter a desvalorização no ritmo atual. Pois, os efeitos dos juros sobre a dívida pública e sobre o desemprego podem não compensar os efeitos benéficos da desvalorização atual".

Os dois economistas alertam que o prêmio de risco pago pelo país para atrair capital estrangeiro está muito alto e poderá elevar a dívida de 34,5% do PIB para 39% em 98, se não houver abatimento da dívida com recursos da privatização. Um crescimento desta ordem deixaria os investidores receosos, o que aumentaria a dificuldade do Brasil de financiar seu déficit em conta corrente.

A taxa de juros na Argentina é de 7% a 8%, enquanto no Brasil é de 28%. Não que a Argentina seja três vezes mais atrativa que o Brasil, mas por causa do ganho líquido dos investidores, o cupom cambial, que cai no Brasil por causa dos impostos e da desvalorização. Na Argentina, a mudança cambial será zero no ano. No Brasil será 7,5%. "Isto significa que, para que os investidores internacionais tenham a mesma rentabilidade em dólares, nos dois países, o Brasil teria que pagar uma taxa de juros 7,5 pontos de percentagem maior que a Argentina. Ou seja, os 8% pagos pela Argentina se converteriam em 15,5% pagos pelo Brasil", escreveram os economistas.

Ontem, o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco escreveu outro artigo lembrando que, se for adicionado nesta conta, o custo tributário, os 8% da Argentina significam 20% no Brasil. E isto porque dos juros nominais é preciso descontar além da desvalorização cambial, os impostos pagos pelos investidores.

Com esta política de desvalorizações cambiais acima da inflação, o país está teoricamente ganhando competitividade. Mas como efeito colateral está também aumentando a própria dívida e tornando inflexível a taxa de juros. A taxa não poderia cair abaixo de 22% para não afugentar os investidores. Este conflito da política cambial e dos juros está hoje em plena discussão.

Guerra

A Bavária estreou no Nielsen com 3,1 pontos no mercado carioca. Luz amarela na Kaiser, que caiu de 7,5 para 5,9. Carlos Eduardo Jardim, vice-presidente Corporativo da Kaiser, assumiu a diretoria regional do estado com a missão de recuperar o terreno perdido.

Litígio

Suspense no Banco Rural. O principal executivo e presidente do Conselho Administrativo, Márcio Garcia Vilela, que assina o último balanço, brigou com a diretoria da instituição e se demitiu. Agora está na Justiça pedindo uma gorda indenização.

Ainda não

Foi alarme falso a divulgação da recuperação das vendas dos supermercados no início deste ano. Desconfiados com o surpreendente aumento de 4% no primeiro bimestre, os técnicos da Abras refizeram as contas e descobriram um erro. O número vai dar quase zero, mas ainda negativo.

Das grandes

A Petrobras vai abrir uma licitação das pesadas. A construção de duas plantas industriais na Refinaria Alberto Pasqualini, no Sul. O investimento é de US$ 350 milhões, com financiamento japonês. Os fornecedores, em festa, estão fechando os primeiros consórcios para a disputa da obra.

Fluxo positivo de dólares voltou ontem com força: US$ 430 milhões líquido. O acumulado de março foi para US$ 5,8 bilhões. Do ano, para US$ 11,6 bilhões. As reservas estão perto dos US$ 64 bi.

Ontem, quando começavam a circular boatos no mercado sobre Sérgio Motta, ele me telefonou para dizer que o ritmo da privatização será mantido. Ele tem despachado diariamente, pelo telefone, com seus assessores. Em entrevista que me deu, para a Globonews, Benjamin Steinbruch confirmou que a Light está procurando um brasileiro para ocupar o cargo de diretor-presidente. Disse que isto está no acordo de acionistas. Michel Gaillard permanece, mas divide o poder.

Opinião
Reta de Chegada
João Alberto
Periscópio
Panorama Econômico
Diário Político

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