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| Recife, Quinta-Feira, 26 de Março de 1998 |
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Tradutores (1) Luis Fernando Verissimo PARIS - Um dos últimos debates do Salão (que acabou ontem) relativos ao livro brasileiro na França foi sobre tradução, que é onde tudo começa ou acaba. Eu acho que não existe trabalho literário mais criativo do que a tradução. Se a criatividade vem do choque da invenção com a estrutura - da imaginação poética com as convenções da métrica ou, no caso da improvisação musical, da liberdade com a obrigação de seguir os acordes - então tradutor pode ser muito mais criativo do que autor. Diante da página ou da tela vazia o escritor está apenas diante do nada. Diante da estrutura fixa e inexplicável do original, o tradutor está diante de um desafio. Pode escolher entre ser fiel ao pé ou ao espírito da letra, entre transpor ou adaptar, entre o "mot juste" e o "mot commeci comme ça". Como um bom solista de jazz, pode viajar sobre a melodia do autor com paráfrases, inversões e variações e produzir sua própria contra-melodia. Alguns dos clássicos do jazz são versões disfarçadas de canções conhecidas que os adaptadores não tiveram escrúpulo em assinar como compositores, ou recompositores. Nenhum tradutor faria isto, mas já ouvi a sugestão maldosa que os tradutores do Paulo Coelho para o francês poderiam reivindicar direitos de co-autores e responsáveis pelo sucesso dos livros. Não sei. Nos debates do Salão - pelo menos os que eu acompanhei - Paulo Coelho não foi muito citado pelos brasileiros, nem muito lhes foi perguntado. Houve um certo silêncio recatado de parte-a-parte sobre o assunto. O entendimento tácito é que se trata de um fenômeno, mas não um fenômeno literário. O francês é a segunda língua mais traduzida no Brasil mas a recíproca está a tristes quilômetros de ser verdadeira - apesar do português ser a segunda língua mais falada em Paris. Aquele antigo bastião da ortodoxia francesa, a classe das concierges hoje está totalmente dominada por portuguesas com o mesmo busto mas melhor humor. Não existe ainda um mercado para as traduções do português e as queixas são muitas. Mas continua amanhã. |
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