Recife, Quinta-Feira, 26 de Março de 1998

Família de Zuzu Angel vai receber indenização

Comissão reconhece que estilista morreu em atentado tramado por militares

BRASÍLIA - A Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos do Ministério da Justiça aprovou ontem, por quatro votos a três, o reconhecimento oficial de que a estilista Zuleika Angel Jones foi morta, em 1976, num atentado político. Ao aprovar o voto do relator Luís Francisco de Carvalho Filho, a comissão considerou que há provas suficientes para acreditar que Zuzu Angel foi eliminada por agentes da repressão. O motivo seria sua campanha para esclarecer a morte do filho, Stuart Angel Jones, preso, torturado e morto, segundo o relatório, "por agentes da Aeronáutica em 1971".

O relator utilizou um vídeo para embasar o seu voto, o que facilitou a aprovação do pedido de indenização feito pela família. Utilizando computação gráfica, os peritos Valdir Florenzo e Ventura Raphael Martello Filho, da Polícia Civil de São Paulo, fizeram uma reconstituição das versões do suposto acidente. Para os peritos, a versão oficial de que Zuzu dormiu ao volante e perdeu o controle do carro "é absolutamente inverossímil". Zuzu morreudepois que seu carro capotou, após bater contra uma mureta da Auto Estrada Lagoa-Barra, em São Conrado.

Segundo os peritos, o carro sofreu um desvio acentuado para a direita, indo bater na mureta. A conclusão, afirma o relator, é compatível com o depoimento do advogado paraibano Marcos Pires, que contou ter visto, da janela de seu apartamento, um carro abalroar o Karmann-Ghia de Zuzu Angel, jogando-o contra a mureta. Segundo o relator, o laudo oficial "serviu de base para que as investigações girassem exclusivamente em torno da sonolência da vítima, o que só se explica diante do objetivo de ocultar evidências criminosas". "A falsidade desse laudo, claramente montado, só se justifica para criar a versão de que ela dormiu ao volante", afirmou Luiz Francisco depois da aprovação da indenização.

A colunista Hildegard Angel, filha da estilista Zuzu Angel, morta em 14 de abril de 1976, disse que o dinheiro da indenização decidida pela Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos será usado para concluir um documentário sobre a vida de sua mãe. "É uma história que precisa ser contada, principalmente para os jovens", disse Hildegard. O documentário está sendo dirigido por Roberto Gervitz (de Feliz Ano Velho) e será distribuído para escolas.

O advogado da família de Zuzu Angel, Luiz Roberto Nascimento Silva, disse que a indenização, ainda não fixada, deverá ficar entre R$ 100 mil e R$ 150 mil.


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