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| Recife, Domingo, 22 de Março de 1998 |
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Arte e empatia Lúcia Guimarães Alan Alda tem 62 anos, cinco netos e é casado há 41 anos com a mesma mulher, que ele conheceu na faculdade. Criou as filhas numa casa em Nova Jersey, como faz o Caio Blinder. Nunca teve casos com atrizes com quem trabalhou. A vida pessoal do ator não rende mais do que um parágrafo nas revistas de celebridades. No Brasil, ele é mais conhecido por três filmes recentes de Woody Allen. Allen sabe escolher atores com precisão cirúrgica e ele deu à carreira de Alda uma injeção de ânimo que qualquer um inveja. Mas não são personagens como o executivo de televisão crasso que ganha o coração de Mia Farrow, nem escritor narcisista dando em cima de Dianne Keaton que provocam o frisson diário na platéia de Arte, no Teatro Royale. É o Hawkeye Pierce de M*A*S*dII*, uma das séries de tv mais populares de todos os tempos, exibida pela TV Rio nos anos 70 e ainda reprisada aqui, diariamente, pela Fox. O capitão-médico Hawkeye Pierce, um iconociasta tentando sobreviver física e mentalmente à Guerra da Coréia, está cristalizado na memória do público. Arte anda lotada e os espectadores pagam até para se acotovelar em pé no fundo do teatro. Mal a luz se ascende sobre a primeira cena, a presença solitária de Alan Alda provoca uma salva de palmas. Ele diz duas frases e as gargalhadas explodem. Mais duas e tome risos. Será que vim parar numa claque de sticom? A estrela incontestável de arte é o inglês Alfred Molina, um dos três personagens da peça que já foi traduzida para vinte línguas. Mas Alda faz o personagem principal, Mare, e é o responsável pela prosperidade na bilheteria. Arte é uma comédia inteligente e muito acessível sobre os limites da amizade. É também uma sátira às sandices usadas para glorificar a arte contemporânea. Março, engenheiro ranzinza, intolerante e conservador, é o anti-Alda. O caso de amor do público com o ator é tal que nas falas mais cruéis, ouve-se um "ohhh..." E um coro de reprovação, como se um exército de preceptoras estivesse ralhando com o menino subitamente endiabrado. Alda esteve em cartaz na Broadway pela última vez em Jake€s Women, há seis anos, e foi a popularidade dele que compensou as falhas da comédia de Neil Simon. Quando a personalidade de um ator compete com os papéis que ele faz, a arte quase sempre sai perdendo. Mas em 11 anos como Hawkeye, Alan Alda aperfeiçoou tanto a mistura de sarcasmo com decência, irreverência com doçura, que parece ter um crédito vitalício entre críticos e público. Ele adora estar no palco, mas justifica as ausências dizendo que é mais simples trabalhar em filmes. "Teatro tem que valer a pena mesmo, porque não posso voltar cedo para jantar com a minha mulher." Com uma atitude dessas, não é à toa que os suspiros são tantos nas matinês do Royale. |
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