(Atualizado no dia 18/3/1998)

Sulanca do agreste para o mundo

Está na hora da Sulanca usar muito mais informática, para ser parte do futuro econômico da região

Silvio Lemos Meira

Alguns meses atrás, Regina Lima mandou de Washington uma reportagem sobre comércio eletrônico que acabava imaginando a Sulanca online. Pois bem, eu vou começar daí para propor que o comércio tradicional, uma evolução razoavelmente simples das feiras medievais, tá para se acabar e mostrar como a Sulanca online pode ser o futuro das vendas. Será?

Bom, vamos então dividir a indústria e comércio, em conjunto, nas classes top-down e bottom-up. O comércio top-down é o que está aí há milênios. Fábricas produzem bens que vão para distribuidores, daí para as lojas e, através de vendedores, para o cliente e usuário.

Nas últimas décadas, este tipo de cadeia ganhou alguma sofisticação adicional, com pesquisas de mercado para tentar adivinhar o gosto do freguês, combinado com propaganda de todo tipo para tentar convencê-lo até de que cigarro o transformará num super-homem e não num canceroso.

No sistema top-down, há grandes perdas de eficiência com excesso e falta de estoques, transportes, capital de giro, obsolescência epor aí vai. Toda a cadeia é prejudicada pelo simples fato de que não se sabe ao certo o que e quanto vai ser comprado pelo cliente, e quando. Mas o principal prejudicado é o cliente, claro, que acaba comprando o que não quer, por um preço que não é justo no mais das vezes, ou tendo que arcar com o ônus de possuir produtos de qualidade abaixo da desejada. Como o cliente sempre tem razão, se o mercado for livre, ele acaba levando a melhor.

A vantagem de um mundo onde empresas competem pelo cliente e seus cabrais é que tem sempre alguém pensando em atrair os clientes dos outros, aumentando sua fatia de mercado, faturamento e, se tudo der certo, lucro. Aí que aparece o sistema bottom-up: imagine toda a cadeia descrita acima, mas de cabeça para baixo. Primeiro, o cliente imagina o que quer comprar; depois, e de preferência, pelo menos para produtos mais sofisticados, faz a encomenda direto ao fabricante. Que produz em massa, mas sob encomenda e ainda se lembra de cada cliente, que passa a ser especial. É como voltar aos tempos em que as pessoas tinham seu sapateiro, que sabia exatamente como era cada um dos seus pés, em detalhe. Só que para todo mundo, e não uns poucos privilegiados.

Esse conceito sempre esteve por aí, mas era impossível por várias razões. Uma delas é que os sistemas antiquados de produção em massa não tinham lugar para a especialização. Não dá, numa fábrica normal, para produzir sapatos sob demanda do cliente, para o que se precisa de uma forma do pé de cada um. A produção em massa elimina tal peculiarização. Produz-se sapatos 44, aos pares, e é problema do freguês se um dos seus pés é um pouco menor que o outro.

Uma outra razão é que o cliente não conseguia falar com a fábrica. Primeiro porque não interessava a um sistema de produção em massa conversar com alguém que queria um par de sapatos; depois, porque a comunicação em si era específica e muito cara. Mesmo que fosse eletrônica, o cliente tinha que ter, por exemplo, um terminal da rede de automação do fabricante. Simplesmente não valia a pena.

Agora entram em cena a Internet e os sistemas de produção controlados por computador. Cada baia de produção completamente informatizada pode, hoje, fazer produtos especiais em larga escala e a baixo custo, sob demanda e especificação do comprador. E, com as linhas de produção controladas por especificações que podem ser descritas através da interação do usuário com a extranet do fabricante, é o usuário quem controla a produção diretamente, sem intermediação alguma.

O leitor deve estar pensando que isto não vai funcionar para tudo e tem razão. Veja o caso do supermercado: se não houver um intermediário deste tipo, dado o diminuto valor de compra de cada item em separado, sairia muito caro fazer uma feira. Imagine comprar uma bandeja de iogurte direto no fabricante, sem falar num cacho de cocos direto de Seu Augusto. Não é preciso dizer mais nada. Supermercados e farmácias parecem estar aí para ficar. Na Internet, também, mas vão ficar.

Mas agora pense em coisas maiores, como automóveis, eletrodomésticos e computadores, ou pessoais, como roupas e sapatos, ou ainda bens culturais como livros e discos.

Neste cenário, onde entra a Sulanca, inicialmente uma indústria e comércio de sobras e seu processamento quase artesanal? Não dá para simplesmente botar a mesma Sulanca online. Em um cenário internacional onde a qualidade é a tônica das relações comerciais, a Sulanca tem que agregar conhecimento, capacidade e conectividade a todos os seus processos. Porque competir só com preço, como a Índia e a China, entre outros, nos estão ensinando, não dá.

Conhecimento em forma de design, estilo, moda, inovação, novos processos produtivos e educação dos trabalhadores e empresários que dela dependem. De tal forma que Sulanca pudesse ser uma marca como Milão. Vai ter gente achando que eu sou doido, que Santa Cruz do Capibaribe não pode ser uma marca como essa. Eu acho que pode; e, se não puder, não custa nada partir decidido e preparado para se chegar a algo bem grande. Se não chegarmos lá, pelo menos é certo que acabaremos bem melhor do que estamos.

Capacidade na forma de meios de produção de qualidade internacional, que possam competir inclusive para fabricar marcas de outros, muito conhecidas, usando capacidade ociosa ou deliberadamente instalada para isso. Capacidade mundial significa ter o melhor preço, no menor prazo, para a qualidade exigida, sempre que possível. Ou então não aceitar a encomenda.

Finalmente, conectividade: ser conhecido no meio e no mundo e estar ligado a ele da forma mais eficiente possível. Para estabelecer ligações e relações fortes e de baixo custo/benefício. É aqui que entra a Internet. Mas a informática entra em todo o processo. No design, então, tem algo interessante acontecendo, que é a fusão do que se costuma chamar design com métodos, processos e ferramentas de computação. E é um design integrado ao processo produtivo, onde o designer não só trabalha o objeto a ser fabricado mas também o processo que o construirá. Depois a gente fala mais disso.

Para terminar, é bom repetir que não dá nem para pensar emcapacidade e conectividade sem montes de informática. Em tecelagem e moda, computação é parte intrínseca do processo há séculos: alguns dos primeiros elementos computacionais modernos eram os cartões de programação de Jacquard para teares, em 1801, na França. Tá na hora da Sulanca usar muito mais informática, para ser parte do futuro econômico do estado e da região, ao invés de parte da sua história.


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