Recife, Domingo, 22 de Março de 1998

Histórias de paixão, amor e dificuldade

Nossa produção cultural revela histórias de paixão, amor e dificuldades. Ingredientes perfeitos para o sucesso de um filme, mas que traduzem a falta de incentivo às produções locais. O documentário, em forma de curta metragem, Simião Martiniano, o camelô do cinema, de Clara Angélica e Hilton Lacerda, que participou da mostra competitiva do 2º Festival Nacional de Cinema do Recife, esbarrou no de sempre. Dificuldade para levantar dinheiro, apesar das leis federal, estadual e municipal de incentivo à cultura.

As razões podem ser muitas. Vão desde o desconhecimento da lei por parte dos empresários, até empecilhos gerados por outras leis de incentivos fiscais que, para atrair empresas, concedem isenção de imposto de renda ou ICMS. E as leis de incentivo à cultura baseiam-se exatamente na dedução desses impostos e taxas. Pior para o Nordeste, até porque o centro de decisões das grandes empresas quase sempre está no eixo sul/sudeste. Elas acabam investindo o IR a pagar em produções de lá. Apesar disso, o curta metragem de Clara e Hilton venceu barreiras.

O projeto todo do curta Simião custou R$ 90 mil. O primeiro incentivo veio de um concurso que o roteiro ganhou no Ministério da Cultura. Foram R$ 40 mil. Até agora recebeu 70%, ou R$ 28 mil. Em agosto próximo o curta recebe os 30% restantes, ou R$ 12 mil. O curta conseguiu também R$ 15 mil da Fundarpe para finalização do projeto. Mas no total só recebeu até agora R$ 42 mil, faltam R$ 48 mil.

Como Simião ganhou o prêmio do Minc, não podia inscrever o projeto na lei Rouanet. Mas o curta Simião, de Clara e Hilton, é o primeiro projeto aprovado que deve receber incentivo da lei municipal. O dinheiro virá do FIC- fundo de incentivo à cultura, previsto na lei municipal. Apesar das dificuldades, Clara Angélica acredita que os empresários começam a se sensibilizar e perceber que podem ter retorno financeiro e de marketing.

O longa metragem Lua de Outubro teve mais sorte e já conseguiu captar R$ 1,5 milhão no mercado através dos certificados de investimento da lei do audiovisual - o custo total do filme é de R$ 2,5 milhões. A produtora do filme gaúcho, Mariangela Grando, conta que 90% dos investidores são gaúchos. Lua de Outubro não se beneficiou apenas da lei do audiovisual, usou também a lei Rouanet, e uma lei estadual 10.846/96, do Rio Grande do Sul.

Como o filme foi rodado em Santana do Livramento, RGS, a prefeitura de lá criou uma lei para dar isenção de ISS e IPTU. O Lua de Outubro foi lançado no RGS, Santa Catarina e Brasília. Já foi visto por 40 mil pessoas. Apesar de todas as dificuldades, vale à pena.

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