|
|
| Recife, Domingo, 22 de Março de 1998 |
|
|
Cinema vira um bom investimento A lei do audiovisual está abrindo uma nova perspectiva e insere o cinema brasileiro no mercado de ações Fátima Beltrão Cultura também é investimento. Os números do mercado financeiro provam isso. Nos Estados Unidos a indústria do cinema é a terceira, atrás somente da automobilística e da bélica. Não depende de incentivos do governo e dá lucros astronômicos. O mais visto da temporada, Titanic, investiu US$ 200 milhões e já rendeu US$ 465 milhões. Sonho para nossa indústria de cinema, que já foi mais paternalista e só dava dinheiro para quem tinha costas quentes na extinta Embrafilme? Não. Depois de um enorme naufrágio, tipo aquele que tragou o Titanic, a indústria nacional começa a se profissionalizar. As leis de incentivo à cultura federal, estaduais e muncipais pipocam pelo país afora. Como consequência, surgem os festivais, 12 ao todo, incluindo o do Recife que se encerra hoje, e mais quatro devem ser criados. As produções, de bom nível, levam o nome do Brasil para o exterior - Central do Brasil abocanhou o Urso de Ouro como melhor filme e Urso de Prata com melhor atriz para Fernanda Montenegro. O filme O que é isso Companheiro recebeu indicação para o Oscar, que a televisão exibe amanhã. PERSPECTIVA Os números não param por aí. A lei do audiovisual 8.401/92 abre uma nova perspectiva e insere o cinema brasileiro no mercado de ações. Eles são negociados através de corretoras autorizadas pela Comissão de Valores Mobiliários - CVM - no mercado secundário ou de balcão- ações que não vão para o pregão das Bolsas. O dinheiro do imposto devido está morto. O governo abre mão dele para incentivar a cultura. Que Mao Tse Tung nos perdoe, mas é um negócio da China. Uma empresa deve R$ 1 milhão de IR, pode deduzir R$ 400 mil em certificados de investimento e ainda obter retorno de bilheteria. Para cada R$ 1 real investido com IR a pagar no filme O Quatrilho, também indicado para o Oscar ano passado, o investidor está recebendo de volta R$ 0,60 centavos. Ou seja, ganhou 60% de um dinheiro que estava perdido para o IR. Em três anos, os CIs já captaram R$ 194 milhões para diversos projetos, a maioria filmes longas metragens. (Veja quadro) QUALIDADE Oswaldo Massaini Filho, diretor da FLW Corretora de Valores Mobiliários, avalia que se os filmes brasileiros alcançaram ótima qualidade e repercussão internacional nos últimos três anos, foi fruto de investimento. Para ele, não há cultura sem dinheiro. Se não houver lucro financeiro, há o marketing institucional. Guilherme Logarinho, assistente de operações da Andima (Associação Nacional das Instituições do Mercado Aberto), informa que dos 106 projetos registrados no sistema Cine, 37 já estão com a captação concluída, ou seja, atingiram o limite permitido pela lei, que é de R$ 3 milhões. Com as leis de incentivo à cultura, os governos cumprem a função de fomentadores da cultura. Dão o pontapé inicial para o mercado se profissionalizar. Em seguida, se retiram, como aconteceu nos países de primeiro mundo. Aí sim o cinema pode caminhar sozinho. Pelo menos é o que se espera de uma atividade rentável como o cinema. |
|