O ator Paulo José, 60 anos, nunca esteve desempregado. O personagem interpretado por ele, entretanto, o Orestes, da novela global Por Amor, é emblemático. Simboliza o drama de 5,2 milhões de brasileiros que estão sem trabalho. É considerado velho pelo mercado e vive uma via-crucis em busca de emprego. Para interpretar o papel, Paulo José, um dos atores e diretores mais conceituados da televisão brasileira, diz que não precisou ter contatos com os desempregados da vida real. "Eu percebo a situação de humilhação diária que eles passam. São homens que se sentem inferiorizados". O ator interpretou, no cinema, outro personagem marcante, Policarpo Quaresma, no filme Policarpo Quaresma - Herói do Brasil, do diretor Paulo Thiago. Criado pelo escritor Lima Barreto, o major Quaresma é um tipo em extinção. Defende com afinco o nacionalismo e os valores da terra. Se ele existisse na vida real, hoje em dia, como seria seu fim? "Se não matassem, prendiam como louco". Na entrevista concedida ao DIÁRIO na semana passada, Paulo José fala sobre a questão do desemprego no Brasil, da falta de sensibilidade dos empresários e apresenta alternativas para o problema. A seguir, a entrevista.
DIÁRIO DE PERNAMBUCO - Como surgiu a idéia de se criar um personagem como o Orestes, que reflete a angústia do brasileiro que sofre com um dos principais problemas sociais que o país vem atravessando?
PAULO JOSÉ - O Manuel Carlos, autor da novela Por Amor, sempre tem costume de colocar em todas as novelas várias questões que dizem respeito a todos, temas para serem colocados em discussão. Nessa novela, tem vários temas assim. Este do desemprego para pessoas de terceira idade é um deles.
DIÁRIO - Como o senhor vê o dilema do personagem, um homem ainda em idade de produzir, e que não consegue arrumar emprego?
Paulo José - Em um país como o nosso, se estabeleceu que um homem de quarenta anos já é velho e inadaptado para um cargo, para uma função, o que é uma coisa extremamente dramática. É uma questão de cultura. Em algumas culturas orientais, por exemplo, o velho érespeitado porque tem a sabedoria. Aqui, a gente vive uma cultura muito imediatista e suicida. É como se o velho fosse uma coisa e o jovem, outra. O jovem é o velho de amanhã. Todos vão ficar velhos.
DIÁRIO - O personagem está abrindo um canal de discussão sobre as dificuldades dos mais velhos em conseguir trabalho. Como está sendo a repercussão?
Paulo José - Como é uma novela de grande audiência e o Orestes é um personagem de grande empatia, é simpático, as pessoas, de uma certa maneira, assumem, com ele, este problema. Isso eu tenho sentido desde que começou a novela, com cartas recebidas, com entrevistas que tenho dado e com o próprio retorno que a Globo tem através de consultas aos telespectadores. A gente sabe que o problema está levantado e começamos a encontrar respostas. Por exemplo: temos recebido na TV informações de supermercados que estão contratando pessoas de sessenta anos para funções de contabilidade
DIÁRIO - E na rua. como é a reação do público ao ver o Orestes?
Paulo José - É a melhor possível. Tem uma coisa muito comovente porque as pessoas dizem "você é o meu pai. Você tem o mesmo problema do meu pai. Lá em casa é a mesma coisa"
DIÁRIO - O senhor chegou a conversar com desempregados para compor o personagem?
Paulo José - Não, mas eu percebo o sentimento do cara que está desempregado. Não existe uma tipicidade do desempregado. É uma pessoa que está numa condição de inferioridade. Não pode prover nada em casa, a mulher trabalha e ele não consegue trabalhar, tem uma sensação de uma humilhação diária. No caso do Orestes, o alcoolismo vem muito com uma válvula de escape por causa desta situação de humilhado, de inferiorizado dentro da própria casa
DIÁRIO - Orestes ainda tem o problema do alcoolismo. Não bastava o desemprego?
Paulo José - Isso aumenta mais ainda a identificação com o público. Toda família brasileira, da classe média, basicamente, e também nas classes populares tem um alcoólatra em casa. Então eu também ouço muito isso: "É igualzinho ao meu pai, é igualzinho ao meu irmão, igualzinho ao meu tio, ao meu avô". Isso permanentemente.
DIÁRIO - De uma maneira geral, como o senhor vê a situação do desemprego no Brasil? Existe alguma perspectiva de melhora? Muitos dizem que este é o grande drama social deste final de século.
Paulo José - Pois é, mas não só um problema do Brasil. É um problema do mundo. Na medida em que se criam tecnologias novas para a indústria, piora ainda mais o problema. Eu tenho trabalhado muito em Santa Catarina, faço um programa de televisão lá sobre a história do estado. Lá tem uma fábrica de pisos e azulejos que não tem nenhum operário, é inteiramente robotizada. Esta fábrica ocupava cerca de mil operários e, agora, tem apenas um homem, que fica sentado, olhando as máquinas. Coloca-se a matéria-prima de um lado e o piso sai pronto do outro lado sem que ninguém precise tocar. Quer dizer, são tecnologias novas que aumentam, certamente, o desemprego.DIÁRIO - O que poderia ser feito diante deste problema, do avanço da tecnologia, que gera desemprego
Paulo José - É difícil. Não sei se há uma solução. Mas acho que se devia, num país como o nosso, ver todas as alternativas que se têm de geração de emprego. Por exemplo, aqui em Pernambuco, existe um potencial turístico. A indústria turística deve ser fomentada e desenvolvida. O Rio de Janeiro tem uma vocação de indústria cultural e turística. Não adianta você ficar brigando para querer colocar uma fábrica de automóvel. É muito mais importante desenvolver o potencial turístico e de produção cultural que a cidade tem.DIÁRIO - Muita gente fala que existe falta de sensibilidade do empresariado brasileiro, que em vez de reduzir as margens de lucros, reduzem o quadro de funcionários logo na primeira dificuldade. Existe falta de sensibilidade?
Paulo José - Acho que sim. Nas empresas grandes que tratam a questão como um negócio, com grande frieza, você procura otimizar a relação de custo e benefício enxugando a empresa do ponto de vista de mão-de-obra. É um negócio que gera coisas dramáticas. O Brasil é um país que tem problema de má distribuição da renda, país de grandes contrastes. Fomos a Monte Santo, na Bahia, produzir umaminissérie, e chegando perto da cidade encontramos uma grande quantidade de varredores de rua. A cidade era limpíssima. O prefeito contou uma história interessante, bem brasileira. Quando ele assumiu o cargo, a prefeitura tinha dois mil funcionários. Aí, fez uma demissão em massa. Demitiu todo mundo e depois percebeu um desequilíbrio enorme porque desapareceram todas as possibilidades. O trabalho que existia na cidade era da prefeitura, de limpeza urbana, de varredores de pequenos serviços. Dois meses depois o prefeito readmitiu todo mundo. É uma maneira indireta de se fazer distribuição de renda.
DIÁRIO - Para muitos é um desperdício manter tantos varredores...
Paulo José - Sim, mas se você não tem outra coisa para dar, é preferível que você mantenha aquelas pessoas ganhando aquele dinheiro que a cidade mantém seu equilíbrio. Realmente é uma questão de sensibilidade. Nas indústrias médias e pequenas, é mais fácil encontrar sensibilidade por parte do empresário. Nas indústrias grandes é uma questão de números, é tudo muito frio: "vamos demitir 1.500". Pronto. São 1.500 famílias que ficam sem emprego.DIÁRIO - Qual seria o final perfeito para Orestes?
Paulo José - Arrumar um emprego de professor de matemática. Bem, pensando bem, era melhor que ele não conseguisse emprego. Aí a discussão sobre o tema iria continuar.
DIÁRIO - E o ator, o cidadão Paulo José já esteve desempregado alguma vez?
Paulo José - Não, nunca. Isso, graças a Deus, nunca faltou. Eu sempre trabalhei muito. Trabalhei em cinema, teatro, televisão, com publicidade. Sempre trabalhei como ator, cenógrafo, figurinista, produtor. Então é o contrário.
DIÁRIO - Além de Orestes, o senhor vem interpretando o Policarpo Quaresma, personagem da literatura brasileira marcado pelo nacionalismo e defesa da pátria a todo custo. Policarpo Quaresma é atual ou anacrônico hoje em dia?
Paulo José - O personagem é anacrônico. Os temas que ele defende são atuais. O Quixote, do Cervantes, é um personagem anacrônico, fora do tempo dele. A história e o filme do Policarpo são atuais porque os temas que ele levanta não são anacrônicos. Agora a defesa do nacionalismo, das nossas próprias raízes é vista como uma coisa fora de moda, então o Policarpo é visto anacronicamente. Contar esta história é crônica, é do nosso tempo.
DIÁRIO - O Brasil anda precisando de Policarpos Quaresma?
Paulo José - Precisa. Mas não no sentido do Policarpo que defende um Brasil ideal, mas daqueles que defendem um Brasil real. O problema da falha trágica do Policarpo é que a inflexibilidade dele faz com que ele veja o país de uma forma extremamente idealizada. Falta senso de realidade para ele. É um sonhador, um visionário. As coisas devem ser feitas com as outras pessoas, como Darcy Ribeiro. Darcy Ribeiro é um Policarpo Quaresma.
DIÁRIO - O senhor acha que o governo deve criar mecanismo para defender a indústria nacional ou o mercado deve ditar todas as normas?
Paulo José - Olha, esta idéia do mercado é a idéia que a raposa tem sobre as galinhas. "Já convivemos tanto tempo perto, então podemos tirar a tela do galinheiro". Essa é a idéia de raposa. Mas também não devemos ter uma visão xenófoba, ser contra tudo que vem de fora, é uma visão errada. Acho que a defesa tem que se dar, principalmente, no campo da produção cultural.
DIÁRIO - Nossas fronteiras estão bastante abertas neste campo, não?
Paulo José - País periférico sofre muito com isso. Os acordos industriais e comerciais atrelam sempre os acordos da produção cultural. Nos anos 30, para os Estados Unidos absorverem nossa produção de café, a indústria cinematográfica também entrou no trato. Quer dizer, os Estados Unidos compram o café brasileiro e o Brasil abre seu mercado para os filmes norte-americanos. Na Europa, reserva de mercado nesta área é um coisa consagrada.
DIÁRIO - Mas com a reserva de mercado para proteger o cinema nacional, os brasileiros ficariam sem ver Titanic, por exemplo?
Paulo José - Para ter Titanic, o exibidor de cinema é obrigado a receber um pacote de filmes. Ele tem que exibir dez outros filmes. E às vezes são filmes desinteressantes, medíocres, vagabundos. O exibidor brasileiro fica com a agenda lotada de filmes estrangeiros. Comisso, o filme brasileiro entra nas sobras, às vezes em datas absolutamentes inadequadas. O produtor nacional passa seis meses querendo exibir o filme e, quando consegue, só sobra espaço durante o Carnaval.
DIÁRIO - A reserva de mercado é justificável em outros setores da economia nacional?
Paulo José - A questão é delicada na parte da informática e das novas tecnologias. O país precisa de uma visão política correta para saber onde deve abrir e onde fechar. Não pode ficar totalmente aberto, esgarçado para essa idéia neoliberal de que tudo é mercado e também não pode ficar inteiramente fechado com uma política xenófoba de dizer que só é importante o que é nosso. A reserva de mercado absoluta gera distorções enormes, porque num capitalismo primário, como o nosso, se o país não tem concorrência nenhuma de fora, presta o pior serviço, estabelece o preço que quer. A competição é importante porque estamos no sistema capitalista
DIÁRIO - Quais os principais pontos positivos e negativos do governo Fernando Henrique Cardoso?
Paulo José - O negativo é a excessiva submissão do governo às determinações do Fundo Monetário Internacional (FMI). Estamos numa situação de enorme dependência das decisões tomadas fora. O Menen (Carlos Menen, presidente da Argentina) falou, explicitamente, que as decisões que vêm de fora ele tem que acatar. Vivemos um pouco este problema. Mas não vejo como poderia ser diferente já que somos um país periférico que está atrelado às economias das matrizes. O ponto positivo é o trabalho na área da produção cultural, as leis de incentivos fiscais estão começando a produzir uma série de produtos culturais, como a publicação de livros, recuperação de museus, cinema, teatro, música.
DIÁRIO - A dependência do capital externo leva ao fechamento de postos de trabalho no país?
Paulo José - Acho que sim. A política de estabilização da moeda, nos moldes do FMI, é recessiva porque a inflação, dentro de certos limites, sempre criou uma mobilidade de recursos. Para segurar o Real no ponto em que está é preciso uma política extremamente recessiva.
DIÁRIO - Em quem o senhor votou para presidente em 1989 e 1994?
Paulo José - Em 1989, no Brizola no primeiro turno e depois em Lula. Em 1994, no Fernando Henrique
DIÁRIO - E agora, vai votar em quem?
Paulo José - Não sei, mas, provavelmente, nesta conjuntura talvez seja Fernando Henrique. A candidatura do Lula, nesse momento, é um anacronismo. O PT está se esfacelando muito. Nas coligações de esquerda não existe um nome ainda de união nacional, que seja polarizador.