|
|
| Recife, Domingo, 22 de Março de 1998 |
|
|
País ainda tem opção O Brasil ainda tem tempo para fazer a escolha: permitir que a crise do emprego se agrave ou voltar a crescer, investindo em educação e garantindo no ano 2005 uma taxa de desemprego extremamente baixa - equivalente hoje à do Japão, pouco superior a 3%. A primeira opção assusta: caso permaneça desenvolvendo-se no nível atual, muito baixo, corre o risco de duplicar seu número oficial de desocupados - alcançando mais de 10 milhões pessoas sem trabalho e perspectiva de futuro. Esses cenários fazem parte do estudo Perspectivas para o Mercado de Trabalho Brasileiro ao Longo da Próxima Década, elaborado pelos economistas Ricardo Paes de Barros, Miguel Fogel e Rosane Mendonça para o Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), órgão do Ministério do Planejamento. O documento está baseado em projeções feitas sobre a evolução da oferta e procura de trabalho; e do crescimento e nível de escolaridade da população. Os economistas avaliam o período entre 1995 e 2005. No cenário mais otimista, os três técnicos imaginam o que ocorrerá se a economia do Brasil voltar a crescer a 6% ao ano - mais que o dobro do previsto para 98. Em tal situação, o desemprego em 2005 cairia a um índice inferior à metade do registrado em 95. Seriam 3,5%, contra 7,9%. Teríamos um milhão de desocupados menos que hoje (4,2 milhões em janeiro passado, de acordo com o IBGE). A média salarial da nação também evoluiria de maneira positiva. Cresceria 53%, duas vezes e meia acima do índice de aumento da produtividade da economia nacional. No período, de acordo com a previsão dos economistas, o país elevará em 21% sua capacidade de produzir. "Estes resultados revelam a elevadissima sensibilidade do mercado de trabalho ao crescimento econômico", afirmam, oferecendo mais argumentos aos críticos do governo federal, a quem responsabilizam pelo baixo desenvolvimento nacional. PESSIMISMO Mas é no primeiro cenário, que as perspectivas brasileiras mudam de cor. Crescendo apenas 3% ao ano, dizem os economistas, o país conseguirá aumentar a desocupaçãode 7,9% para 11,2% da população economicamente ativa (PEA) - indicador que representa as pessoas com idade para entrar no mercado de trabalho e à procura de emprego ou já ocupadas. O problema desse cenário é que a economia do Brasil passará a contar com uma legião de mais de 10 milhões de sem emprego. E com trabalhadores que terão a média de seus salários aumentada em apenas 18% - inferior, é bom lembrar, à taxa de crescimento da produtividade da economia (21%). Ou seja, podemos ter mais problemas sociais e concentração de renda. Os dois cenários, no entanto, dependem muito dos avanços tecnológicos que a economia brasileira conseguir registrar. Benéfica para a elevação dos salários, a tecnologia é devastadora em relação à quantidade de mão-de-obra empregada. "Um progresso tecnológico mais intenso leva a uma queda mais lenta na taxa de desemprego e a um crescimento mais acelerado no nível salarial", justificam os economistas do Ipea. Longe de ser um mero documento de futurologia, o estudo utiliza a evolução da economia no passado para indicar os caminhos que o país poderá seguir. O trabalho serve como sinal de alerta antes que o drama do desemprego se transforme em tragédia. |
|