Recife, Domingo, 22 de Março de 1998

Lembranças do sofrimento

"Em 1932 trataram muito mal da pobreza", conta Mauro Antônio Morais, de 85 anos. "Foi a pior seca da minha vida, foi o maior sofrer do mundo, de tristeza, de doença, de malvadeza. Fiquei tão magro que só tinha a casquinha. Na concentração, os guardas só davam um farelo amarelo, sangue de boi e carne de cabeça de gado para a gente comer. Tinha dia que passava de 20 a 30 defuntos nas redes, que eram jogados feito pedras nos buracos".

Com os olhos marejados, mostra que a lembrança do sofrimento nem o tempo conseguiu apagar: "Fui sepultar um anjinho (criança) no cemitério. Chegaram duas mocinhas mortas, que só tinham couro e ossos. Quando ia enterrar o menino, dois guardas vieram tirar o fígado dele. Mas reagi. E eles disseram que o menino estava morto, não sentia mais nada. Respondi que ele não sentia, mas que eu ia sentir por ele. Peguei a pá e comecei a cobri-lo com terra. Mas as duas mocinhas não se livraram dos carniceiros, tiveram o fígado arrancado", conta Mauro.

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