Recife, Sexta-Feira, 20 de Março de 1998

Brasil perde sede da Alca

SAN JOSE - O Brasil abriu mão do Rio de Janeiro como sede da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), cuja criação, em 2005, começará a ser discutida a partir de 18 de abril. Em troca, cobrou um preço alto: o Mercosul (bloco que integra com Argentina, Paraguai e Uruguai e tem como sócio privilegiado o Chile) estará no comando dos próximos sete anos e meio de negociações.

A barganha começou na quarta-feira à noite, varou toda a madrugada de ontem e continuou durante o dia. Antes de se trancar numa sala com os ministros dos outros 33 países da Alca, o chanceler Luiz Felipe Lampreia já sabia que a candidatura do Rio estava à venda, desde que a oferta fosse boa. "É mais importante controlar uma negociação que determinará o futuro do continente do que sediá-la", disse.

Ontem à tarde, o Mercosul emergiu do encontro de ministros cantando vitória. "Decidimos negociar em conjunto e, tendo em vista que o Chile se considera parte do Mercosul, podemos dizer que o resultado foi ótimo: presidiremos o começo e o fim das negociações, que são os momentos mais importantes, e estaremos na vice-presidência no meio do processo", disse o chanceler chileno, José Miguel Insulza.

Insulza se referia ao Comitê de Negociações Comerciais (CNC), integrado pelos vice-ministros responsáveis pelo comércio na Alca. Os presidentes e seus vices (responsáveis pela agenda) serão rotativos, mas os quatro países do Mercosul e o Chile sempre ocuparão uma cadeira, até o final do processo, no ano 2005.

Durante os primeiros 18 meses, Canadá presidirá, com Argentina atuando de vice e anfitriã da reunião inaugural de vice-ministros, marcada para junho que vem em Buenos Aires. Nos 18 meses seguintes, os argentinos presidirão o CNC, compondo a chapa com Equador. O terceiro mandato, também de um ano e meio, caberá aos equatorianos, mas a vice-presidência será do Chile. E durante os últimos 24 meses de negociação os presidentes serão dois: Brasil e Estados Unidos.

O Mercosul comemorou outras duas vitórias. Logrou criar um grupo de trabalho para discutir especificamente agricultura e dar a presidência à Argentina. O objetivo principal era garantir acesso ao mercado dos Estados Unidos, para produtos que correspondem a 36% das exportações brasileiras e 40% das argentinas.

O Brasil também presidirá o grupo de trabalho de subsídios, medidas antidumping e direitos compensatórios - ou seja, aquelas barreiras que os EUA utilizam para impedir importações, sem elevar tarifas. "Um grupo casa com o outro e, com ambos, teremos controle sobre as negociações que mais nos interessam", disse o embaixador José Botafogo Gonçalves, um dos principais negociadores do Itamaraty.


Fale conosco diario@dpnet.com.br

MAPA BRASIL ECONOMIA ESPORTES HISTÓRIA HUMOR
INFORMÁTICA INTERIOR MUNDO VEÍCULOS VIAGEM VIDA URBANA VIVER