Recife, Sexta-Feira, 20 de Março de 1998

Crise anunciada

OPINIÃO
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A figura do vice, presidente ou governador, não deveria existir. O direito brasileiro, neste caso, complica uma convivência difícil por natureza. Aqui, o vice assume até em caso de viagem do titular. Nos Estados Unidos, ao contrário, o vice só vai para o primeiro plano quando ocorre o impedimento definitivo do chefe. Só há um vice que deu certo: Marco Maciel. Aliás, quando assumiu, pediu a alguns amigos sugestões sobre o que fazer. Ouviu a todos e decidiu ficar calado e manter-se informado sobre as ações do governo. E assim tem agido.

Na história política brasileira, os vices usualmente brigaram com os presidentes. É quase uma tradição republicana. Jânio Quadros versus João Goulart, João Figueiredo contra Aureliano Chaves e Fernando Collor às turras com Itamar Franco. As brigas têm motivos variados, razões diversas, mas acabam acontecendo. Salvo a exceção já mencionada, trata-se de uma convivência tumultuadíssima. O acordo do Partido dos Trabalhadores com o PDT, em busca da unidade das oposições, comete o pecado ao juntar Lula e Brizola na mesma chapa. Lula, presidente, Brizola, vice-presidente.

Os dois partidos, PT e PDT, nunca conviveram bem no teatro da política. No início, Brizola dizia que o Partido dos Trabalhadores era obra do falecido general Golbery do Couto e Silva com o objetivo de dividir os votos das classes operárias. O PT, por sua vez, fez oposição sistemática aos dois governos de Leonel Brizola no Rio de Janeiro. Lula afirmou, certa feita, que, se eleito, não desfaria as privatizações. Brizola não concordou. Lula, no entanto, é favorável às invasões de terra no campo. Brizola, não. O PDT apoiou Collor até o fim. O PT foi oposição desde o primeiro momento.

A montagem deste palanque único já se revela frágil desde agora. Por causa de um panfleto anônimo, no Rio de Janeiro, os dois grupos começaram a se engalfinhar. Vladimir Palmeira diz que Brizola vive ameaçando Lula e criando um clima de conflito contínuo com o candidato e com o partido. É neste cenário que se tenta conciliar o inconciliável. Dois candidatos de temperamento forte e com visões absolutamente distintas da vida pública. As duas correntes não se misturam. Poderão até se tolerar, mas jamais conviver.

Em verdade, esse desenho de palanque entroniza dois candidatos à Presidência da República. E, assim, colocará uma crise dentro do Palácio do Planalto, caso a chapa seja vencedora no pleito de 3 de outubro. É inimaginável que Brizola, na Vice-Presidência, tenha um comportamento recatado. É difícil admitir que Lula venha a ser dirigido pelas idéias e teorias políticas do velho caudilho pedetista. Essa chapa insinua, na verdade, uma crise anunciada.

Polo saúde

Constituiu-se êxito reconhecido o seminário sobre "A Vocação Terciária da Região Metropolitana do Recife" realizado nesta Capital, sob os auspícios do DIÁRIO DE PERNAMBUCO e do Instituto de Administração e Tecnologia. Na medida em que se altera, nos últimos anos, a estrutura do PIB estadual, para privilegiar o setor terciário da economia, dilata-se o interesse, não apenas entre empresários e intelectuais, pelo futuro do setor de serviços. Não se trata mais de apurar a força de tendência que historicamente remonta ao século XVII, quando o Recife, diretamente da imperial Olinda voltada para as pompas da administração de estilo convencional, passou a ser cognominado como a Cidade dos Mascates, ou seja, daqueles que negociam.

A expressão Cidade dos Mascates, aliás, se foi depreciativa nos começos, não encerra nenhum enigma de difícil decifração. O simples decurso do tempo foi comprovando um Recife crescentemente vocacionado para a prestação de serviços. De fato, o que antes foi comércio hoje é gama impressionante de serviços integrantes do Terciário Moderno que opera sem qualquer antagonismo, em relação aos serviços rotineiros. Por isto, o seminário acerca da vocação terciária da Região Metropolitana não discutiu outra coisa que o turismo de escala e a consolidação, entre nós, dos polos informáticos e de saúde.

Com relação à saúde, não se trata daquela que é própria incumbência dos governos.Trata-se da medicina de alta qualificação centrada em equipamentos de última geração e no emprego de uma mão-de-obra cuja eficiência em nada fica a dever à que atua nos estados mais ricos da Federação. O segmento saúde, foi enfatizado no decorrer do seminário, não prescinde de novos apoios e incentivos, em que pese considerar-se já consolidado. O ISS local poderia ser minimizado, aqui, tal como sucede noutras capitais como Maceió, Porto Alegre e Teresina. A economia em tributos seria lançada como investimento na atualização de uma tecnologia que se faz a cada passo mais rápida.

Não se trata, penas, de defender a posição relativa do nosso polo de saúde no contexto nacional. Como observou o médico Eustácio Vieira, o polo emprega, hoje, mais de 21 mil profissionais, contingente apenas menor do que o do setor bancário na área metropolitana. Para que se tenha idéia exata da relevância do setor quanto à geração de empregos, é bastante assinalar que um laboratório abriga 400 assalariados, enquanto uma fábrica de cerveja, 350 empregados. Numa hora em que a preocupação social se volta para o desemprego da mão-de-obra, faz sentido que o Poder Público fomente e encoraje o Polo de Saúde graças à capacidade, que tem, de dinamizar o engajamento de pessoas no processo produtivo.

Paulo Fernando Craveiro
Reta de Chegada
João Alberto
Opinião
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Panorama Econômico

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