Recife, Sexta-Feira, 20 de Março de 1998

Os trópicos chegaram

Luis Fernando Verissimo

PARIS - Os franceses dizem il fait gris. Em vez de fazer sol, faz cinzento. Paris, sob certas condições, poderia usar a cor como verbo. Paris gris, Paris cinza sem parar. Paris cinzava quando o Brasil desceu no aeroporto Charles de Gaulle na tarde de quarta-feira. Não sei até que ponto o conteúdo do nosso avião simbolizava o Brasil. A dona Ruth, o Weffort, o Jorge Amado e a Zélia iam na primeira classe, o que estava certo, mas o número desproporcional de escritores, críticos e poetas distribuídos pelas outras classes, não era um avião muito representativo. De qualquer maneira, quando tocamos o chão do aeroporto o cinza se dissipou e quando o ônibus com a delegação brasileira para o Salão do Livro parou na frente do Hotel Bedford, perto da Madeleine, Paris decididamente não cinzava mais. A marca do 18º Salon du Livre de Paris, que este ano homenageia o Brasil, é um tucano colorido e certamente apartidário segurando livros no seu bico verde e amarelo. Simbolicamente, os trópicos tinham chegado e o inverno lhesentregava a cidade.

Enquanto o avião taxiava na pista depois da aterrissagem a Cora Rónai, do banco de trás, nos informava que, ao contrário de outros aeroportos do mundo, o grande perigo no Charles de Gaulle não são as aves mas os coelhos que se multiplicam no terreno e fazem túneis sob as pistas, ameaçando a segurança dos aviões em movimento no chão. Um pouco como o prestígio do Paulo Coelho na França obriga a delegação a cuidar onde pisa nas suas opiniões e respostas. Ninguém quer ser descortês com o entusiasmo alheio. Na recepção na Prefeitura de Paris, o prefeito citou dois nomes como exemplos de literatura brasileira bem recebida na França, e a referência a Paulo Coelho foi maior do que a referência a Jorge Amado. O Hotel Bedford, onde está a maior parte da delegação, é onde Dom Pedro II, nosso imperador exilado, morreu. Deve haver outra metáfora aí em algum lugar mas não vou encontrá-la agora. Não sob o efeito do fuso horário.

Enfim, estamos bem preparados, o pessoal está unido, vamos defender as cores do tucano com raça e prometemos não fazer feio. Não há a menor possibilidade de se repetir o episódio do corte de cabelo à força da Seleção, mesmo porque muitos não têm mais. Um abraço nos meus familiares.


Fale conosco diario@dpnet.com.br

MAPA BRASIL ECONOMIA ESPORTES HISTÓRIA HUMOR
INFORMÁTICA INTERIOR MUNDO VEÍCULOS VIAGEM VIDA URBANA VIVER