Recife, Quarta-Feira, 18 de Março de 1998

Pierre Bourdieu escreve sobre a miséria do mundo

Mariza Pontes
Da equipe do DIÁRIO

O sociólogo francês Pierre Bourdieu, professor do College de France e diretor de estudos em ciências sociais na École des Hautes Études, transformou em livro os resultados de pesquisa, realizada por uma equipe de sociólogos sob sua coordenação, que apresenta uma visão sociopsicológica da miséria, a partir da análise de depoimentos dos próprios sujeitos que a vivenciam. O livro A Miséria do Mundo (La Misere du Monde, Editora Vozes, vários tradutores, 752 páginas, R$ 49,90), propõe aos políticos do mundo uma nova maneira de encarar a política social, aproximando-se dos concidadãos para conhecer os problemas e modos de vida dos diversos grupos sociais e profissionais.

Segundo Bourdier, existe uma escala de misérias, que relativiza as dificuldades e sofrimentos de cada pessoa, família ou grupo social, quando se comparam os casos isolados com a miséria mais ampla. No cotidiano, a grande miséria é invocada para condenar o comportamento de quem se queixa ("você não tem do que se queixar... tem gente vivendo muitopior...") ou para consolar quem sofre (há coisa muito pior, como você sabe... poderia ser pior...).

Esse tipo de generalização, que o sociólogo atribui aos políticos em geral como forma cômoda de lidar com as mazelas dos pobres e se eximir de responsabilidades, impede que se perceba e compreenda "toda uma parte de sofrimentos característicos de uma ordem social que tem, sem dúvida, feito recuar a grande miséria (menos, todavia, do que se diz com freqüência), mas que, diferenciando-se tem também multiplicado os espaços sociais e oferecido as condições favoráveis a um desenvolvimento sem precedentes de todas as formas da pequena miséria.

MISÉRIA SOCIAL

Durante três anos a equipe de sociólogos, liderada por Bourdieu, dedicou-se a compreender as condições em que se produzem (ou reproduzem), as formas contemporâneas da miséria social. Eles pesquisaram o universo dos conjuntos habitacionais, das escolas, do proletariado, dos camponeses, dos artesãos, da família etc, onde se desenrolam conflitos específicos.

O livro relata histórias curtas, de uma série de personagens reais, como a crônica de uma assistente social abandonada num hospital, de um metalúrgico órfão, de um direitista radical dependente da família, de um diretor de escola que foi vítima da violência urbana, de um policial que vive num bairro da periferia, de uma empregada doméstica, entre muitos outros exemplos.

O estudo sobre os pobres e a marginalidade social, com estudos de casos e depoimentos, indicam que o ambiente social é responsável pela perpetuação de certos conflitos, ao reproduzirem estereotipos, condições sociais e condicionamentos. Os estudos de casos referem-se principalmente a problemas da população francesa e imigrantes, abordando aspectos como o preconceito contra estrangeiros, o desemprego, os conflitos raciais, o sentimento de inferioridade pela baixa escolaridade, a solidão etc.

IMPRENSA

O autor relaciona os comportamentos responsáveis por esse estado de coisas, inclusive a participação da imprensa que tende, segundo ele, ao investigar qualquer assunto entre as populações da periferia, a se aproximar mais da pesquisa policial que de ciências sociais, apegando-se a fatos espetaculares e desprezando, como desinteressantes, a vida normal e cotidiana dessas populações, contribuindo para sua estigmatização.


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