Recife, Terça-Feira, 10 de Março de 1998
Eric Cabanis/Agência France Press A festa do finlandês Mika Hakkinen (E) deverá ser frequente durante todo o Campeonato Mundial de Fórmula 1

Ducha fria

MELBOURNE - As noites vão ser curtas em todas as fábricas das escuderias de Fórmula 1, em Grove (Williams), Enston (Benetton), Maranello (Ferrari) ou Guyancourt (Prost): o Grande Prêmio da Austrália, primeira prova do Campeonato Mundial, domingo em Melbourne, já passou e as conclusões foram amargas. O esmagador domínio dos McLaren-Mercedes no traçado australiano foi uma verdadeira ducha fria para o resto dos participantes. É certo que muitos deles sabiam que a equipe anglo-alemã é muito competitiva, mas duvidavam que lhes desse vantagem seu novo sistema de freagem, que possibilita maior estabilidade nas curvas, e queriam ignorar a qualidade de seus pneus Bridgestone.

Não esperavam, no entanto, sofrer essa humilhação diante de Mika Hakkinen e David Coulthard: quase três segundos por cada percurso e quase uma volta de diferença na chegada. Os observadores temem que esta demonstração prefigure uma dominação total dos carros anglo-alemães no Campeonato Mundial. Os pilotos querem achar que não.

"Só é o primeiro Grande Prêmio, a temporada é longa", afirmou Jacques Villeneuve (Williams-Mecachrome), campeão mundial. O canadense, quinto na Austrália, se declarou culpado de um erro de regulagem: "Foi minha culpa", admitiu. O abismo parece enorme entre McLaren e o resto. Os avanços técnicos realizados pela equipe de Ron Dennis são dificilmente alcançáveis. Iniciando uma revolta sexta-feira no circuito de Melbourne, contra a freagem diagonal, as equipes queriam evitar ter que correr contra o tempo para superar o handicap e colocar a equipe anglo-alemã ao alcance de todos.

Diante à inflexibilidade da Fia, que considera legal a via escolhida pela McLaren, devem tentar aplicar um sistema de freagem idêntica ao do carro anglo-alemão. Não será fácil! E será suficiente?

Parece que Ferrari e Williams trabalham há algum tempo numa técnica deste tipo. E se a escuderia campeã do mundo está próxima de utilizá-la, tendo já entrado na última fase treinos, a escuderia tem um grave problema de funcionamento. A situação é grave masnão desesperante. Todo mundo espera agora ver se Hakkinen e Coulthard são capazes de reeditar sua demonstração dentro de três semanas em São Paulo, e quinze dias depois em Buenos Aires. Nesse caso, Michael Schumacher e Jacques Villeneuve devem de novo se resignar a um papel secundário.

Os dois pilotos não querem nem pensar nisso, e muito menos suas escuderias, sobretudo a Ferrari, que não esconde que só o título mundial é seu objetivo este ano. "A distância em relação à equipe que venceu é imensa. Não há nada a dizer sobre isso. Devemos manter a calma e continuar trabalhando", disse ontem Jean Todt, diretor-esportivo da Ferrari.

POLÊMICA

Um protesto oficial foi apresentado, na noite de domingo, contra o arranjo feito pela equipe da McLaren, na vitória do finlandês Mika Hakkinen no Grande Prêmio da Austrália, primeira prova da temporada de Fórmula 1. O piloto escocês da escuderia, David Coulthard, foi objetivo de uma polêmica por ter tirado o pé do acelerador quando liderava a prova, faltando duas voltaspara o fim do GP, facilitando a vitória do seu companheiro de equipe.

O presidente da organização do GP da Austrália, Ron Walker, apresentou uma denúncia a Federação Internacional de Automobilismo (Fia). "Estamos dirigindo esta carta neste sentido para o bem da competição", disse. "Não me corresponde a discutir o procedimento e a sanção que pode ser aplicada aos pilotos ou escuderia, porém eles devem esclarecer melhor esta situação".

Os dois pilotos disseram que haviam selado, previamente, um pacto de cavaleiros, em que o primeiro que entrasse na primeira volta na frente sairia vencedor da prova. A Imprensa australiana disparou violentos comentários contra esse arranjo, qualificado com o cômico pelo jornal The Daily Telegraph,

ao afirmar que "as equipes podem, a qualquer hora, inventar seu próprio regulamento". Já o The Sydney Morning Herald disse que "mais que uma prova, se trata de exercício de descrédito".

INÍCIO DO SÉCULO

Os acordos sobre uma ordem de chegada nas corridas de carro existem desdeo início do século, assinalou, ontem, em um comunicado a Federação Internacional do Automóvel (Fia), como resposta ao protesto oficial dos organizadores do Grande Prêmio da Austrália de Fórmula 1 pelo acordo dos pilotos da McLaren. "A Fia respondeu que as instruções de equipe precisando a ordem de chegada dos pilotos de uma mesma escuderia existem desde o início do século. Portanto não seria justo criticar ou sancionar a McLaren pelo que ocorreu no GP de ontem (domingo)", indicou o comunicado. "No entanto, o Conselho Mundial do Esporte Automobilístico será convidado a decidir, durante sua reunião de 18 de março, se cabe agora acabar com essa prática", acrescentou a nota.


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