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| Recife, Terça-Feira, 10 de Março de 1998 |
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Morte anunciada OPINIÃO É desagradável assistir à agonia e morte de um partido. O Partido do Movimento Democrático Brasileiro, PMDB, já vinha definhando há algum tempo, mas no último domingo mostrou suas vísceras a todo o país. Dividido desde a base até a cúpula, o partido não foi o território onde as divergências fossem tratadas com o mínimo de elegância. Ao contrário, o plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília, foi transformado no palco de xingamentos e ataques verbais. Em política, ao contrário do que ocorre na vida, partidos e parlamentares morrem várias vezes. O PMDB, no entanto, teve seu tempo. Foi grande. Abriu o caminho para que as massas organizadas derrubassem os governos militares. Produziu heróis, ídolos e personagens históricos. Ulysses Guimarães, o senhor diretas, marchou por todo o Brasil, na sua anticandidatura à Presidência da República, em 1974. Ele unia as dissidências, costurava acordos e se projetava como o nome nacional indiscutível. Tancredo Neves, mineiro discreto, exímio arquiteto de obras políticasperfeitas, conseguiu o prodígio de desmontar o sistema dos militares sem dar um único tiro. Conversando, articulando e negociando fez avançar o projeto de abertura que culminou com sua eleição para presidente da República. Tancredo morreu na véspera da posse. Assumiu José Sarney, que completou o mandato e organizou a Constituinte, presidida por Ulysses Guimarães. Pernambuco deu uma enorme contribuição para o antigo MDB: Fernando Lyra, Marcos Freire e Thales Ramalho foram eleitos em 1970. Lyra e Marcos Freire integraram o grupo dos autênticos. Thales Ramalho fez o papel de um moderado manhoso que chegou à Secretaria-Geral do partido. Naquela mesma eleição, despontou Jarbas Vasconcelos. Miguel Arraes passou pelo partido quando retornou do exílio. Mas no final da Constituinte, um novo grupo começou a florescer dentro da velha agremiação. Mário Covas, Pimenta da Veiga, José Richa e Fernando Henrique Cardoso começaram a trabalhar naquilo que seria Social-Democracia Brasileira. Depois, transformou-se em PSDB. Aconvenção nacional do PMDB decidiu, como se sabe, apoiar o presidente Fernando Henrique Cardoso na sua corrida à reeleição. Ao decidir desta forma, por 389 votos contra 306, o partido se dividiu quase pela metade. Vão sobrar cacos de PMDB para muitos quadrantes da cena política nacional. O velho PMDB acabou. O novo, que surge dessa convenção, está marcado a ferro e fogo, desde o nascimento, pelo carimbo do fisiologismo e pela inexistência de uma liderança nacional. É a crônica de uma morte anunciada. As profecias Neste primeiro trimestre temos a lamentar, como o fizemos por mais de uma vez, a elevação da taxa de desemprego da mão-de-obra nacional. Tanto que vem aí um pacote oficial tendente a atenuar as duras conseqüências da desocupação humana. Mas o começo do ano está de certa forma a desmentir avaliações feitas no encerramento de 1997, sobretudo pelos escritórios de consultoria. Deram como certo o drástico encolhimento do mercado. O saldo negativo da balança comercial iria reforçar a tendência deficitária observada no último ano e meio, enquanto o país seguiria exposto, mais do que antes, ao assalto dos especuladores internacionais. O quadro deste começo de ano seria assim perigosamente instável, e com a possibilidade de furo no processo de estabilização econômica. No jogo permanente de contrários que é a economia, transcorre, no entanto, o trimestre numa atmosfera menos deprimente do que puderam imaginar os analistas. Se olharmos a situação do ponto de vista da população consumidora, os juros vêm sofrendo quedas consecutivas, se bem que ainda imperceptíveis na ponta do processo econômico - o balcão das lojas. Mas, não há notícia de que o país deixou de atrair os dólares de que necessita, uma das razões anunciadas pelos técnicos para a permanência dos juros na estratosfera. Outro aspecto que diz respeito ao interesse de vastas camadas populares é a caderneta de poupança. Veio, talvez tarde, o aumento da respectiva remuneração, de modo a aproximar o proveito do poupador tradicional do ganho de investidores que apostam o dinheiro no médio prazo do mercado financeiro. Dada a exígua remuneração anterior da poupança que prevaleceu desde meados do ano passado, as carteiras especializadas das instituições financeiras perderam nada menos que R$ 3 bilhões para o consumismo e formas distintas de aplicação do numerário. Além da rebaixa dos juros e elevação na taxa da poupança, o mês de fevereiro viu diminuir o déficit comercial para apenas duas centenas de milhões de dólares, sem que haja sido notado menos impulso na atividade industrial. Mas, é certo que naquele mês as importações foram menores, enquanto as exportações tiveram o desempenho esperado. É assim o Brasil, o palco onde se desmentem prognósticos econômicos. Não é, definitivamente, a pátria de futurologistas. É assim, o lugar sobre o qual poderia estar pensando Chesterton, quando anunciou que "os deuses se comprazem em desmentir as profecias humanas". Até os meteorologistas foram ludibriados pelo El Niño, já que a estiagem não se abateu este ano, felizmente, sobre os nossos sertões. |
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