Recife, Terça-Feira, 3 de Março de 1998

Naya deve renunciar para não ser cassado

Amigos aconselham o deputado a desistir do mandato na Câmara

BELO HORIZONTE - O deputado Sérgio Naya (PPB-MG) vai renunciar ao seu mandato para não ter de enfrentar os duros interrogatórios da Comissão da Câmara dos Deputados que vai investigar as denúncias contra ele. A informação é de amigos do deputado, que consideram sua cassação irreversível e o estão o aconselhando a desistir logo do mandato. "Com a renúncia ele não terá o dissabor de enfrentar o massacre que o espera na CPI", disse um desses amigos.

Na avaliação dos amigos, a renúncia tem outra vantagem: permitirá a Sérgio Naya que volte a se candidatar a outro mandato parlamentar, no futuro, quando as atuais acusações contra ele caírem no esquecimento da opinião pública. "Ele sabe que, na Justiça, a questão vai demorar muitos anos. Pode voltar ao Congresso em outra eleição, talvez na de 2002, quando provavelmente a Justiça ainda não terá decidido as atuais denúncias", diz um político próximo ao deputado.

As desastrosas declarações de Naya na fita divulgada domingo pela Rede Globo, segundo seus amigos, eliminaram suas chances de sair-se ileso de uma comissão instaurada pela Câmara dos Deputados para investigar seu comportamento. "Muita gente foi cassada por muito menos", admite um amigo do deputado, para quem a situação de Naya se torna ainda mais difícil se tratar de um ano eleitoral.  

A Câmara dos Deputados envia hoje à Comissão de Constituição e Justiça uma representação solicitando a abertura de processo destinado a cassar o mandato do deputado Sérgio Naya (PPB-MG) por falta de decoro parlamentar e prevaricação, dispensando a realização da sindicância e adotando uma espécie de rito sumário para apressar a punição do deputado. Ao invés de instalar a comissão de sindicância para apurar as denúncias, a Câmara deseja adotar uma posição política e dar uma demonstração de que não vai permitir que um parlamentar se esconda por trás da sua imunidade.

A convocação de uma reunião da mesa da Câmara para decidir punição a Sérgio Naya foi anunciada em nota oficial do presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, considerando "muito graves as acusações feitas contra o parlamentar". Para Temer, que ainda ontem estava fora de Brasília, a fita exibida pela Rede Globo "fala por si mesma e exige providências urgentes e enérgicas da mesa da Câmara como um todo".

Vítimas terão crédito

BrASÍLIA - O presidente Fernando Henrique Cardoso determinou, ontem, ao presidente da Caixa Econômica Federal, Sérgio Cutolo, a criação de uma linha de financiamento especial para que as vítimas do desabamento do edifício Palace 2 possam adquirir novos apartamentos. "O presidente está preocupado em tomar medidas em favor das vítimas da construtora para que eles possam recomeçar suas vidas", afirmou o porta-voz da República, embaixador Sérgio Amaral.

De acordo com Amaral, a direção da Caixa já entrou em contato com os proprietários dos apartamentos destruídos para verificar o que pode ser feito. "Aquilo que estiver na esfera do governo federal o presidente quer que se examine", afirmou o embaixador.

O Advogado Geral da União, Geraldo Magela Quintão, também criticou o deputado federal Sérgio Naya, proprietário da empresa Sersan, responsável pela construção do Palace II. "Aquilo me entristeceu, me enojou", afirmou Quintão, referindo-se à reportagem da TV Globo, veiculada no Fantástico, onde Naya se gaba de ter falsificado a assinatura de um governador de Minas. "Ele confessa a prática de crimes, de ato delituoso, crimes de falsidade ideológica e falsidade material. O vídeo não vale como prova, mas é um indício muito grande. É a confissão dele. Agora é só procurar o documento", disse o advogado.

Fernando Henrique chegou a consultar Quintão sobre possíveis atitudes que o governo federal poderia tomar no caso, mas o advogado afirmou que a União não tem como intervir em uma questão que é de competência do Ministério Público do Rio. "Existe um arsenal de leis no país para combater o problema", diz Quintão. Para o advogado, uma ação contra Sérgio Naya não deve ser tomada durante a comoção popular que envolve o caso.

Lyra recebeu favores

BRASÍLIA - O procurador-geral da Câmara, Fernando Lyra (PSB-PE), disse ontem que, em 1991, recebeu graciosamente do deputado Sérgio Naya (PPB-MG) um apartamento, em Brasília, onde morou por mais de um ano. "Eu perdi a eleição, em 1990, e fiquei sem lugar para morar", justificou-se Lyra. "O Sérgio Naya me ofereceu um apartamento, em um prédio ainda não ocupado por ninguém." Lyra acrescentou: "Foi um gesto de colega."

O ocupante do cargo de procurador da Câmara, hoje entregue a Fernando Lyra, é o responsável pelo zelo em relação à imagem da casa. É ele quem deve abrir processo contra alguém que, por palavras os gestos, difamar, caluniar ou injuriar o Legislativo.

Fernando Lyra disse, porém, que o favor do passado não o impedirá de votar a cassação de Sérgio Naya, caso a Câmara abra processo contra o deputado de Minas, por crimes políticos e eleitorais confessos, além de ser o engenheiro responsável pelo prédio que desabou no Rio, no Carnaval.

"Na fita divulgada pelo Fantástico o deputado Sérgio Naya quebrou o decoro, não há a menor dúvida", afirmou ele. Segundo Lyra, as revelações de Naya, em uma reunião com vereadores de Três Pontas e Leopoldina, "foram uma estupidez, uma babaquice".

Muita gente está querendo a morte do deputado Sérgio Naya (PPB-MG), que até ganhou um site na Internet. Quem acessar o endereço http://www.geocities.com/ SoHo/3336/sergionaya.htm poderá ver a foto do parlamentar engravatado, como se fosse um santinho distribuído em época de eleição, ao lado da palavra crime, escrita dezenas de vezes.

Além do título Morte a Sérgio Naya, o site traz fotos da implosão do condomínio Palace 2. E é possível "pedir a urgente cassação e punição da fera", através de telefone, fax e e-mail para o líder do PPB na Câmara, Odelmo Leão.

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