Recife, Sábado, 21 de Fevereiro de 1998

Quando um não quer... Dois não brincam

É Carnaval, e todo ano e alguns casais se dividem: um adora brincar; o outro quer distância

Mariza Pontes
Da equipe do DIÁRIO

Esse ano não vai ser igual àquele que passou/ eu não brinquei, você também não brincou/ Aquela fantasia que eu comprei, ficou guardada... Mas esse ano, tá combinado/ nós vamos brincar separados. (Frevo Serpentina Partida, de Arthur Lima Cavalcanti)

Todo ano é a mesma coisa. Em meio a todos os apelos que convidam ao Carnaval, Márcia Cruz, digitadora, 25 anos, e Ivan Duarte, bancário, 28 anos, arrumam as malas e partem, na sexta-feira após o expediente, para uma praia bem longe da folia. Vão contrariados: ela adora Carnaval, ele detesta. Para não brigar, ela cede e tenta aproveitar a natureza, pegar um bronze, ler, namorar... mas se houver oportunidade para uma fugidinha, atrás de um baticum qualquer, ela aproveita. Ele, apesar de ver sua vontade prevalescer, também se chateia, porque acaba agüentando um bocado de reclamações sobre seu jeito "careta".

Namorados há três anos, eles acham que apesar do aborrecimento, o amor não se desgasta. "É só no Carnaval, passa logo", alegam. Nos dois anos em que Ivan procurou se adaptar ao espírito carnavalesco de Márcia, não teve sucesso. "Forcei a barra. Bebi muito pra me animar, acabei passando mal, brigamos. Prefiro aproveitar esses dias para relaxar e ver a folia somente pela TV", diz ele.

Nem todos os casais convivem mal com suas diferenças. "O fundamental é o respeito à individualidade", diz Ana Maria Costa, empresária do ramo de confecções, casada há 33 anos com Fernando, que não gosta de Carnaval mas nunca impediu a mulher de brincar e muitas vezes chegou a tomar conta dos filhos pequenos ou a acompanhar os blocos, meio de longe, oferecendo água e refrigerantes para ela e as irmãs (cujos maridos também não gostam da folia), que se esbaldavam no frevo. Este ano, ele vai acompanhar a mulher nos desfiles do Bloco da Costura, que sairá no Galo da Madrugada, no Bairro do Recife, domingo de tarde, e em Olinda na terça-feira.

"Mas nunca me aproveitei, sempre evitei brincar de noite, mesmo sem cobranças nem ciúmes deles", revela Ana. As diferenças se estendem também àsáreas da política e do futebol, mas com o mesmo entendimento. "É por isso que adoro meu marido, a gente se respeita muito", ensina ela.

O casal Mônica de Castro Lima (dona de casa, 38 anos) e Edmilson Bezerra de Lima (comerciário, 45 anos), casados há 14 anos, procura se afinar no carnaval desde os tempos de solteiro. "Ele acaba indo no empurrão", revela Mônica, que à muito custo consegue arrastar Edmilson para o Galo ou a casa de amigos, no sábado, mas depois vão para uma praia. Edmilson confessa que tem medo da multidão, só consegue relaxar se beber. "Prefiro assistir pela TV".

Seus vizinhos, Gioconda, que trabalha com computação, e Edgar Farias de Souza Filho, industriário, casados há quatro anos, vão brincar juntos pela primeira vez este ano. Foliã de carteirinha, em solteira ela brincava os quatro dias, primeiro no Galo e depois em Arcoverde, com a família. Desde o começo do namoro ele não escondeu seu temor pela violência carnavalesca, mas tentou acompanhá-la, mantendo-se apenas como observador. Depois de casados, passaram a assistir pela TV. "Eu sou compreensiva, aceito o jeito dele", diz Gioconda, que este ano conseguiu uma vitória: carregou Edgar pro Bloco da Parceria e deve ir pra matinê do Clube Português com a filha de 2 anos e sete meses, que é "louca por Carnaval, igual a mãe."

Já os dentistas Carlos César Júnior (32) e Silvana (30), que embarcaram para a praia de Japaratinga, no Ceará, mantêm um acordo desde que se casaram em 1992: a cada ano, um deles comanda a programação no Carnaval. No ano dela, ele "faz o favor de ir pra Olinda, torcendo pra tudo acabar logo, desejando que ela faça uma bolha no pé e queira voltar pra casa". No ano dele, só existe um destino: praia. Nos tempos de solteiro, ele confessa que apelava para a chantagem, ameaçando acabar o namoro, mas tudo ficou mais calmo após o casamento. Agora, com um bebê de três meses, Carlos César acha que as pendengas acabaram por um bom tempo. "Acho que encontrei a fórmula. Quando o bebê crescer, é só engravidá-la de novo", brinca.


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