Recife, Sábado, 21 de Fevereiro de 1998

A dúvida de Dorinha

Luis Fernando Verissimo

Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Como se sabe, Dorinha se recusa a revelar sua idade mas diz que não é verdade que se salvou do naufrágio do Titanic porque na hora do choque já estava dentro de um bote salva-vidas com um foguista, treinando respiração boca a boca. Nesta época do ano Dorinha sempre hesita entre sair na Caprichosos ou fazer um retiro espiritual e, como ela diz, "dar uma pitanguyada por dentro". Quando vai para o seu retiro Dorinha sempre dá uma festa particular de adeus à carne, quando passa o comando do seu grupo de pressão, as Socialaites Socialistas - que defende a adoção no Brasil do socialismo no seu estágio mais avançado, a volta do Tzar - à vice-presidenta Tatiana (Tati) Bitati. Na festa do ano passado Dorinha se excedeu e quando acordou na manhã seguinte estava no retiro - com a bateria da Caprichosos! Este ano, está mais indecisa do que nunca, e foi por isso que me escreveu.

"Caríssimo. Beijos pegajosos. O que é viver no Rio? Quando não são os bandidos e a dúvida que nosassalta. Não posso me queixar das chuvas porque, para mim, foram providenciais. Meu atual marido, cuja incompatibilidade comigo era notória - ele é 110 e eu sou 220 - desapareceu num boeiro, o que me poupou o aborrecimento de mais um divórcio. Meu único medo é que ele brote, de repente, de um ralo do banheiro, e numa hora imprópria. A dúvida, helás, é a de sempre: Sapucaí or not Sapucaí? Este ano eu ia sair de Light, toda de preto, arrastando os pés e dando explicações. Mas preciso pensar na minha regeneração espiritual já que pretendo começar o novo milênio, como os computadores, do zero. Inclusive virgem. Estou pensando em ir para o retiro mas com um helicóptero de prontidão, para o caso de me dar uma coisa e na hora eu ter que ver o Chico. A tua agoniada Dorinha".


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